A vaca

 

Balthus descaradamente furtado

 

O minestrone escorria pelo canto da boca. Horace Catskill não tinha dentes em 1756. Aliás, ninguém tinha. Pela janela, HC observa a rua apinhada de prostitutas mirins enquanto lentamente carrega a colher de sopa. Ele que sempre preferira cavalgar camponesas cheias, bocetas amplas, agora considerava um crescente desejo por fêmeas menores.

Horace Catskill foi o maior protagonista da miscigeno-sifilização brasileira. Ele poderia sair daquela taverna e rumar ao subúrbio onde vivia. Mas direi que ele embarcou em direção a uma capitania do norte brasileiro. A mesma idéia fixa: uma fêmea menor para agregar ao seu plantel de escravas sifilíticas.

Num belo dia de sol, HC espia o interior da casa de pau-a-pique. Cheiro de respiração no interior do casebre. Dormem amontoados os três bacuraus, a filha de 13 anos, a mulher e o pai. O pai semidormente vem notando o desabrochar da menina, sua pele firme, graciosa, os cabelos compridos e os atributos de mulher feita, dentes perfeitos, faminta como uma pequena loba. Entre suas posses estão a prole, a mulher, um cavalo, meia dúzia de porcos e um alqueire de milho plantado. A vaca, definitivamente, fora eletrocutada por um raio.

Os senhores não podem fazer idéia de como aquela ambiência morna e nucléica promoveu no esqueleto de HC uma confusão de paixões e desejos salivatórios. Pelo racho da parede, junto com os primeiros raios do sol, o Coronel HC lança fungadas como se para sorver de uma só vez o odor das axilas emboladas, dos pés azedos, dos corpos moles de sono, do sebo de suas peles.

A menina desperta com o raiar do sol e levanta-se em direção à porta. Da cama, o pai observa a silhueta recortada pela luz. Os mamilos salientes, um odor hormonal, um desalinho. HC engole seco enquanto o pai abafa um desejo que se avoluma embaixo da manta. A menina ganha a luz, atravessa o terreiro deixando as poucas roupas pelo caminho, exibindo descuidadamente seu um metro e quarenta e oito centímetros de altura, ombros frágeis cor de mel, costas flexíveis e sedosas, cabelos castanhos queimados pelo sol. Na soleira da porta, o pai está ao lado do senhorio, observando a criatura banhar-se numa tina. Olham-se; em HC, a mesma idéia fixa: uma fêmea menor para agregar ao seu plantel de escravas sifilíticas. Na cabeça do pai, o cadáver da mocha e uns sentimentos estranhos.

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