O fantasma de Paulo Francis
Assistindo ao Manhattan Connection (8/1) lembrei-me, como sempre faço, do Paulo Francis.
Os jornalistas que acabaram de sair da faculdade, com 20 e poucos anos, não sabem quem foi. Francis e Chico Science (o do mangue beat) morreram em 1997. Os meninos, por incrível que pareça, só localizam o Chico Science.
Portanto, daqui um tempo, o fantasma de Paulo Francis — que ainda vaga pela cabeça dos jornalistas mais velhos — deixará de existir.
Francis deixou obra importante como jornalista?
Foi ator amador, tornou-se crítico de teatro, redator-chefe do Correio da Manhã, editor da revista Senhor, redator do Pasquim, correspondente da Globo nos Estados Unidos, colunista da Folha de S. Paulo, O Globo e Estadão.
Pode ter sido, em dado momento, o maior salário do jornalismo brasileiro. E também o colunista mais influente. Publicou um ótimo livro sobre 64. Foi, por certo, o mais divertido integrante do Manhattan Connection.
O legado de Francis, a meu ver, foi sua influência sobre uma geração de jornalistas. Tanto os que gostavam dele, quanto os que não gostavam. Ainda é comum ouvir sobre possíveis “herdeiros” de Francis.
Francis se impôs como polemista. A autoridade que julgava ter esteve baseada em quatro coisas:
1) Os anos de ouro do Rio de Janeiro
2) A memória paquidérmica
3) O acesso à informação que ninguém tinha
4) O Politicamente Correto ainda não tinha dominado tudo
Quando Francis invocava o seu Rio de Janeiro, todo mundo se sentia um jeca. O Rio em que ele viveu intensamente não era o Rio de Nelson Rodrigues, que se considerava suburbano. O Rio de Francis era a região mais cosmopolita do Brasil, a Zona Sul, no auge. Então, não tinha muita discussão.
Francis era um prodígio de memória. Então sacava uns dados da cabeça com muita facilidade e deixava todo mundo embasbacado. Mas, como todo mundo que confia na memória, às vezes errava feio.
Tinha acesso às coisas do mundo. Era alguém que gostava de fazer Nova York – Londres em três horas, de Concorde (lembra?). Ia ao NY City Ballet toda semana. Frequentava o Elaine’s (quando havia o Elaine’s) e todos os restaurantes chiques da cidade. Comprava livros na Barnes and Noble, imagina.
Livros que só seriam lançados no Brasil meses, anos depois.
Isso explica muita coisa. Hoje a classe C vai a Nova York comprar. Mas, há pouco tempo, ir a Nova York era um acontecimento para os pobres mortais.
A internet comercial dava seus primeiros passos no Brasil — tinha três anos, oficialmente — quando Francis morreu. Quando ele falava, por exemplo, de sua dançarina preferida, a Darcey Bussell, nós ficávamos imaginando como seria a moça, a partir de suas caprichadas descrições.
Se tivesse um Google Images, olha só o que viria.
Ou seja, a autoridade de Francis emanava de informações que não estavam disponíveis para qualquer um. Uma autoridade à moda antiga.
Ele dizia sempre que considerava meio loucos os leitores que escreviam cartas à redação. Fico imaginando o que ele diria dos editores de redes sociais e conteúdo colaborativo.
Ficou famosa a briga com Caio Tulio Costa, o primeiro ombudsman da Folha de S. Paulo. O motivo: Francis teria feito comentários racistas na coluna.
Hoje, com o domínio do Politicamente Correto, Francis seria considerado misógino. Teria problemas sérios com as “minorias” que adorava espinafrar. Sustentabilidade, então…
Nunca achei que fosse racista ou misógino. Era tudo charme. Um charme que hoje não é mais publicamente tolerado.
E sua obra como ficcionista?
Há os romances Cabeça de Papel, Cabeça de Negro e a novela Filhas do Segundo Sexo. O primeiro causou alguma comoção entre jornalistas na década de 70, quando foi lançado. A crítica acadêmica não gostou e muitos de seus admiradores acham chato para chuchu.
Do personagem Hugo Mann, alterego de Francis em Cabeça de Papel, pincei a frase:
“Aos 39 anos, percebi que faria 40, que não sou Fitzgerald, Trotsky, ou aspirante a Isaac Deutscher, e começava a entender por que certos conhecidos de idade aproximada me falam com volúpia mansa de cabanas na serra e na praia, onde se isolam, só nós mesmos somos capazes de aguentar nossos fracassos, nossa decadência física, nossa exaustão moral”.
É uma frase mal escrita, há muitas delas no romance. Mas atualmente me faz sentido.
Daqui um tempo, o ectoplasma de Francis deixará de existir.
E não estaremos mais vivos para constatar que nada disso é tão importante.


Pingback: O espírito do verdadeiro jornalista | Ellen Lima
Nasci em 1987 e deixei a faculdade de jornalismo, formado, em 2010. Por sorte, tive a oportunidade de assistir às atuações de Francis no Manhattan Connection. Com certeza era o mais interessante da bancada, visto que, hoje, mal consigo acompanhar o programa. Sempre polêmico, ele me deixou uma frase na cabeça e, por isso, lamentei sua morte, em 1997, mesmo que na época possuísse apenas 10 anos. O que ele dizia, na verdade, era um relato de sua juventude: “Passei minha época de jovem praticamente trancado, em casa, lendo todos os livros que conseguia ler”. Foi uma descrição que me alertou para a importância da leitura e da informação em nossas prosaicas vidas. Francis era isso, um “enciclopédia ambulante” sempre disposto a contar uma boa história e analisar de forma interessante o mundo, ainda que fosse através de sua visão particular, sempre interessante.
Alexandre, caro
Que legal que chegou a ver o Francis em ação. Você é um dos poucos da sua geração que têm essa referência. Obrigado pela leitura.
Abs
Edward
O Francis do Pasquim (“meu sabonetão”, como dizia o Ivan Lessa) era engraçadíssimo. Usava sua cultura de almanaque para o melhor: fazer piada, e o fazia bem. Mas o que ficou para a posteridade e fez escola foi o Francis da Folha: boboca e decadente. Seu ectoplasma não deixará de existir porque compõe o DNA da maioria dos jovens inteligentinhos de direita que tomaram de assalto os púlpitos da imprensa paulistana, todos tentando ser esse Paulo Francis que ele mesmo não aguentava ser. Sim, teve também o Francis da TV, aquela autocaricatura, mas acho que ali nem era mais o Francis.
Jary, meu amigo
Quem tem usado “inteligentinhos” é o Pondé, na coluna da Ilustrada, às segundas. Tens visto? Da última vez ele abriu um parágrafo no meio do texto, antes de uma douta explicação psicanalítica, com os seguintes dizeres: “Peço aos inteligentinhos que nada sabem sobre pecado que vão brincar no parque”.
Um abraço
Edward
Verdade, amigo Edward, roubei dele. Li sim, a boa crônica do Pondé, e o leio sempre, além de saborear sua participação no Jornal da Cultura. O próprio Pondé, inteligente de fato, é um inteligentinho às vezes, mas não é dos que emulam o Francis, tem repertório próprio e não provoca só por provocar – sempre traz uma questão para a reflexão. É autorreferente, mas não é cabotino como, por exemplo, o João português-da-piada não-sei-quê Coutinho e outros ainda menos votados.
Abraço!
Me sinto incompleta quando leio um texto desses e vejo que, mesmo cursando Jornalismo, ainda não tive a chance de saber mais sobre pessoas tão importantes na minha área de atuação…
O jeito é procurar por mim mesma e buscar mais inspirações como as que Francis deixou.
Um abraço;
Francielly.
Comecei a ler Paulo Francis quando este escrevia pro Pasquim. A patota fazia os maiores elogios a ele, como o cara que pensava em bloco. O primeiro livro que li dele foi “Opinião pessoal”. Confesso que fiquei meio baralhado, pois era muita cultura condensado. Francis nos massacrava com sua cultura mas nos estimulava a ler mais e mais. Era um trotskista mas usava sua opção(acho) como forma de espinafrar o stalinismo ou o comunismo soviético. Bom, gostava mais dos ensaios dele, como “o afeto que se encerra”, “trinta anos esta noite”, “certezas da dúvida”. Pra mim, o legado de Paulo Francis é este: não ter medo de dizer o que pensa; e procurar dar uma abrangência maior possível às suas opiniões. É isso.