O cinema era mais divertido ou Sobre Sérgio Bianchi

22 jan

Muitas tertúlias com o Serjão no Esfiha Chic, em frente ao Cine Belas Artes

Lembro-me da sensação de entrar no cinema, de repente, no meio da tarde, e pegar o filme que tinha acabado de começar, qualquer um. Era quase sempre no Cineclube Elétrico, no Cine Bijoux, no CineSESC ou no MIS.

Hoje, dizem, compram-se bilhetes pela internet. Estou fora.

O acaso pode trazer muitas surpresas. E atualmente não tem havido muito espaço para o acaso.

Muitas e boas supresas. Mistérios e Paixões (1991), direção de David Cronenberg, baseado no romance Naked Lunch, de William Burroughs, uma das mais gratas. O discreto charme da Burguesia, de Buñuel. E os filmes de Sérgio Bianchi.

Conheci Sérgio Bianchi antes do lançamento de A Causa Secreta (1994). Ele morava na rua Augusta e andava por ali, conversava com jovens cinéfilos no Esfiha Chic, em frente ao Cine Belas Artes. Ele brincava que um dia ainda faria um filme definitivo sobre as mais diversas formas de sodomia.

Uma vez ele exibiu Romance (1988), Mato Eles? (1982) e Maldita Coincidência (1979) no Centro Cultural São Paulo. Ao final da exibição, debatia com plateia. Discussões sobre a produção nacional. “Claro que o governo tem de subsidiar o cinema. É como investir em bibliotecas. É como dar lápis para as crianças na escola”, dizia.

Mato Eles? é um clássico. Trata-se de uma denúncia da situação dos índios Xavantes, Guaranis e Xetás, espremidos no meio de uma briga litigiosa entre o Grupo Slaviero, a Funai e o Governo do estado do Paraná. Expulsos de sua reserva, são obrigados a trabalhar no corte e extração de madeira de sua própria reserva, numa madeireira criada pela Funai.

Nem mesmo o próprio cineasta escapa da denúncia: a cena em que o cacique guarani pergunta ao diretor “quanto dinheiro ele ganha” para filmar os índios pode ser considerada uma das mais emblemáticas do cinema brasileiro (a partir de 5’02”).

Se ainda não viu, procure Cronicamente Inviável, que aborda o caos social em diversas regiões do Brasil, e Quanto vale ou é por quilo?, que trata da questão do negro brasileiro. Vale a pena.

O cinema de Sérgio Bianchi é punk, um laivo de autenticidade numa época de pasteurização.

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2 Respostas para “O cinema era mais divertido ou Sobre Sérgio Bianchi”

  1. Bruno 22/01/2012 às 9:43 pm #

    Eu assisti ao Cronicamente Inviável e Os Inquilinos. É um cineasta que traz muita inquietação para seu público. Lembro que muita gente, no curso de ciências sociais, tinha terrível aversão pela produção dele. Eu curti ambos os filmes, são provocativos. nada melhor que isso.

  2. Rogério Castro 23/01/2012 às 9:00 pm #

    Concordo.

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