Já pensou no dia em que o Lula morrer? — Capítulo 4*
– Falou com ele?
– Falei, está louquinho o nosso internet man. As regras: no names, no questions, sex only.
– E ele topou?
– Topou. Mas não marcamos nada. Um dia vai rolar, tipo La belle de Jour. E sabe o que ele falou? Que vai mandar um recado pra você escrito na minha bunda.
– Tipo hotwife…
– Tipo mulher liberada.
– …
– …
– Hehehe (Walther)
– Hihihi (Mia)
– Bom… olha, o Pondé pelo menos não é petista chato que nem o povo da PUC.
– Mas ele dá aula na FAAP e na PUC, não? Acho que o projeto dele é ser proscrito da Folha. Aí vai ser a glória.
– E o Loyola, agora sério, está bem?
– Sim, me pareceu ótimo, está sempre trabalhando, escritor profissional. Como poucos, aliás. O maior escritor de São Paulo.
– Ah…, mas e a Lygia?
– A Lygia é o caso de autora que sobreviveu ao auge.
– Tenho um exemplar autografado d’As Meninas…
– É ótimo…
– …
– …
– Você não acha que está sendo injusta quando fala que São Paulo não tem escritores? Tem tanta gente escrevendo romances urbanos…O Galera, o Michel Laub, o João Gabriel, o Bernardo Caravalho inclusive em um romance sobre São Paulo, o Modernell; o Cuenca é carioca, né?
– O Galera, o Michel e o Modernell são gaúchos, o Bernardo e o Cuenca são cariocas. O João Gabriel é um caso complemente diferente, apesar de são-paulino, tem alma carioca.
– Mas o Galera não disse que nasceu em São Paulo?
– É, mas é gaúcho, conformação ética e temperamento de gaúcho.
– …
– …
– O Mario Sabino! Você gosta do Mario Sabino, não gosta?
– Gosto. Quer dizer, mais ou menos. Quer dizer, gosto.
– Hehehe
– …
– Fiquei pensando ontem, descobri um autor, John… Jeremiah Sullivan.
– (Djeremáia)
– Isso, (Djeremáia), ótimo, alguém precisa traduzir logo.
– É sobre o quê?
– Ensaios. Os ensaios andam melhor que a média da ficção. Viu que não teve Pulitzer de ficção em 2012?
– Não…
– Pois é, o principal concorrente era um livro póstumo, inacabado, do Foster Wallace.
– …
– Você vai pra Flip esse ano?
– Não sei… a gente estava tentando vender um projeto de aplicativo pra eles, serviço, agregador de leituras e rede social, não é legal?
– Super…
– Não tenho mais muito saquitel para os filisteus de Paraty, vou falar a verdade…
– Putz, sabe que hoje recebi no inbox do celular um email do G1 escrito: “Morre aos 66 anos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva”. Era vírus. Fui checar nos portais, nada… Mas foi de manhã, li e comentei com a Janete na cozinha, ela ficou trêmula.
– Já pensou no dia em que o Lula morrer?
– Então, acho que o dia em que o Roberto Carlos morrer é que vai ser a comoção.
– Pelé não?
–Pelé? Pelé, não…
– Sílvio Santos?
– Olha, deve ter um parcela…mas, acho que não…
– Vamos dar uma pedalada?
– Não…tenho hora pra depilar daqui a pouco.
– Brazilian wax?
– A moça chama de “Depilação cavada”.
– Hehehe (Walther)
– Hihihi (Mia)
————————–
* este é o quarto capítulo da novela Coração Liberal, aberta à sua participação, caro leitor. Ajude a escrever o próximo capítulo no espaço reservado aos comentários do blog, que é generoso. O quinto capítulo não tem data (e nem obrigação de) para ser postado, vai depender. Segue em vermelho a colaboração do leitor XFactor, uma continuação possível escrita em 20/4, dando continuidade ao Capítulo 3. Muito bom. Nessa versão, Mia é ruiva. E pode mesmo ser, vamos ver.
– “Walther, eu lhe disse que não quero nenhum tipo de controle. Assuma seu papel de cuckold e cale-se. E, claro, traga outro Cosmo, porque meu copo está seco…”, disse Mia, num instante de dominatrix, aliás, ultimamente, elas se tornavam cada vez mais comuns. A caminho da copa, Walther passou pelo enorme espelho da biblioteca. “Quantas vezes já me vi refletido nessa superfície e nunca entendi o que via”, murmurava, enquanto seus olhos semi-míopes observavam suas marcas de expressão.
Ao retornar para sala, encontra sua private pinup nua. O cabelo, agora num ruivo a La Juliane Moore, o fascina de tal maneira que ele derruba bandeja e drinque no chão. Ela se mantém fria (mas como ela pode se manter assim após tantos anos de casamento?). Um estrondo o tirou desse devaneio: um homem moreno, alto, de veias saltadas no pescoço grosso e cútis de quem jamais havia usado as máscaras da classe média de pele pálida surge na porta. Ele treme. Suas mãos suam.
Mia dá um sorriso e, gentilmente, toca com a ponta de seu salto alto a taça quebrada no chão. Walther decide pegar os cacos para que os pés alvos de sua fêmea não se cortem e encharquem o tapete de sangue e fluídos. O espelho da biblioteca agora está na sala: Walther se enxerga de quatro no chão, limpando cacos de cristal, limpando suas vergonhas. À frente dele, uma mulher de pernas abertas e tesão latente. Atrás do homem: outro homem, mostrando, sem constrangimentos, o poder do falo supremo. Ele, ali no meio, apenas de olha no espelho. Decide, então, apertar um caco com forças e sentir a dor. Agora, sim, ele sorri e se sente pronto para o que vier.
(to be continued)
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