Amor e enforcamento com estabanos — Capítulo 6
Então deixa eu te dar um contexto.
Gostava mesmo era de encher a cara com os amigos e falar sobre carros musculosos Maverick seis cilindros. Gostamos, hoje sei, daquilo que não temos, daquilo que não podemos ter. Meu primeiro automóvel, numa época em que faziam carros beges, foi um fusca.
Havia uma licença, um entendimento tácito entre os iguais de que era normal possuir um Volkswagen. Na verdade, era isso ou nada. Era algo como, veja bem, uma alma sensível dirigindo comicamente — e com alguma consciência do significado — aquele símbolo do subsenvolvimento brasileiro; rogava às moças que notassem ali um valor adicional: o jovem proprietário, um metro e noventa de fibras musculares voluntárias, tesas, e algumas coisas estranhas na cabeça.
Minhas aspirações. Ainda padeço deste mal, meu deus, você bem sabe. Buscava apenas — não mais do que isso — o amor verdadeiro, ser admirado pelo que verdadeiramente era, um homem sem importância coletiva, um indivíduo com total falta de clareza em seus propósitos e muitos desejos. Um homem ingênuo e bom.
Andamos em terreno pantanoso. Um de nós sucumbiu e ofereceu à sociedade paranaense um enforcamento aos dezoito anos, com espasmos e estabanos, e nunca conseguimos falar disso direito porque são coisas do amor.
Gostava de brigar e de contar vantagens. Deus sabe quantas provocações, quantos murros surdos na madrugada, informações que não pertenciam ao mundo das mulheres que cortejávamos, elas tinham apenas uma noção inexata de como andávamos.
Minha primeira menina, numa época em que quase todas, com grande chance, eram virgens, esgotou as possibilidades de qualquer amor. Tudo o que sobreveio, nos anos seguintes, à inesquecível visão das omoplatas brancas que se davam sem temor às minhas investidas afoitas passaram a ser apenas coisas “em comparação”. Possivelmente até hoje.
Hoje, aos quarenta, sou Walther Conkrite (uálter concráite) — amigos íntimos, incrível que ainda os tenho, me zombam McNamara — um homem que deseja ardentemente ver a “espousa” sodomizada por um estranho: Mia, a mulher ucraniana das mil e uma e mui adoráveis pulsões lésbicas, ela tem estômago, parece, agora vamos até o fim.
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