Gazmuri desafia Alejandro Zambra

Vês?

Meu nome é Gazmuri, sou o homem que escreveu Bonsai, o melhor romance chileno de 2006.

Rua Monjitas, tenho sede e o estômago colado.

Há muito deixei de lado o garbo, a coluna ereta e a impecável caminhadura. Sou um daqueles sujeitos de traços finos disfarçados pela fuligem e mortos de medo, loucos de raiva.

Rua Monjitas na altura da Plaza de Armas.

O caminhão de lixo exibe as luzes e o barulho; o som da cidade está encoberto, antecipo-me nos restos do hotel Vitoria, lambo latas de atum e fanicos de pão italiano e pastrami, degluto uma pequena poça de ginger ale quente no plástico dos detritos que são logo recolhidos pelas mãos hábeis de um negro. Um dos poucos.

Repele-me um tufo de fumaça preta à outra margem da rua e, en passant, resvalo no sujeito que sobrevive deitado em cobertores curtos, um legítimo cocoon em cujo crânio está alojado há décadas um projétil, Zavalita, um mui bem quisto clochard que levanta os saiotes plissados das estudantes do colégio Imaculada Conceição.

Paro. Mijo a seus pés. Estou mijando. Vês? Sigo ganhando as gentes da plaza, jovens bêbados apagam-me um cigarro nas fuças, arfo, sigo, adiante há a catedral de portas abertas e o piso frio que me liberta do calor.

Desconheço os simbolismos da grande nave e suas peanhas. Ao longe, capto os silvos da cidade, apitos, buzinas e vozes femininas.

Uma casa de carnes. A carne é uma substância saborosa. Sugo os tutanos crus, chupo as gorduras, tramelas de vacunos em sangue pisado. Línguas, olhos, bochechas; eu, um ser mediano, no digladio diário com as moscas. Sujo de sangue, me atiram água a cem graus centígrados para a dispersão.

Estou satisfeito, mas anseio. No beco do mercado central há uma fêmea no cio. Ela oferece sua vulva, ou boceta, ou buceta, a outros tantos que ali estão; vejo-os afoitos, e alguma coisa em mim se assoberba. Quero penetrar a cadela na porta da carniceria, é o que faço, mordo o cangote, o gozo, permaneço ainda alguns minutos dentro e a brisa do poente me impele ao bairro dos boêmios.

Ali, uma bela fêmea na companhia de um macho me afaga a cabeça. É Julia, a punk suicida que não aprendeu a amar. Uma zonzura completa, um prazer. Não tenho sede, fome, raiva. Sou, de novo, um campeão. Um ereto espécime de garbo.

De pé, farejo uma noite de perdição. Arranco com as quatro patas à outra margem da rua, e os pelos do pescoço eriçam milésimos de segundo antes de um peugeot passar com as duas rodas sobre minha cabeça e ganhar a alameda O’Higgins.