TED is bullshit — Walter me trocou por uma moça [Fiction]

O palestrante (e ilusionista) David Blane

– Eles estão invadindo!

– Hum?

– Eles estão pilhando, estuprando e envenenando as águas do reservatório!

– Mama, go sleep… As suas palavras cruzadas…

Minha mãe está demente. Ontem pôs cinco vestidos, um em cima do outro, desceu o elevador e marchou sem destino pela avenida Sumaré até cair com o rosto no chão e ser atendida por uma unidade móvel de socorro. Foi depois levada para uma unidade de tratamento intensivo, de onde já saiu. Minha mãe, uma mulher soberba que possuiu metade das propriedades do Jardim América. Hoje reluto em entregá-la a uma casa de repouso. Casa de repouso. Porque se não for isso terei de ficar com ela todas as horas do dia até a sua morte — a genética indica que ela pode atingir os 117 anos.

Enquanto isso, tenho pensado bastante sobre os dezessete minutos. Os dezessete decisivos minutos. Parece pouco, mas não é, sobretudo nesta época de plateias ansiosas. Não é a brevidade superficial dos quinze e tampouco avança sobre o terreno movediço dos vinte, que inconscientemente é como se fosse meia hora e aí andamos já no incerto reino temporal dos bocejos. Por isso o mágico David Blane prendeu a respiração em seus dezessete e todo mundo ficou eletrizado.

Tenho dezessete minutos para falar sobre remuneração, amanhã de manhã, no fórum internacional que vem pela primeira vez ao Brasil. Um formato consagrado que já teve a participação de Desmond Tutu. Que aliás fez um recorte magnifíco, não caiu na armadilha de tratar de Deus e sua Criação e sintetizou bem a mensagem de que o mundo é cruelmente desigual e que está em nossas mãos o poder de transformá-lo.

Trabalhei durante trinta anos em multinacionais e fui uma das primeiras vice-presidentes de recursos humanos no Brasil. Cheguei ao topo da carreira e continuo ganhando muito dinheiro com as consultorias e os conselhos de adminstração de que participo. Agora me pedem para falar sobre remuneração em dezessete minutos. Vou contar rapidamente os meus planos. Não quero fazer mais uma palestra, porque palestra todo mundo faz e abundam os palestrantes “profissionais” com suas platitudes e fórmulas fáceis de sucesso. Quero propor uma coisa que faça refletir, que reverbere, algo assim realmente lifechanging, perdoe-me o anglicismo, mas a expressão é melhor no original.

Se uma mulher chega dez minutos atrasada ao trabalho, vamos dizer, com o cabelo despenteado, certamente será muito mais notada pelo chefe — seja ele homem ou mulher — do que se seu colega homem fizer o mesmo. Há no subtexto das relações uma pressão sobre as mulheres que atinge o grau máximo quando se pensa na possibilidade dela engravidar. Na competição natural da carreira, a mulher continua em desvantagem quando tem filhos e precisa cuidar deles. Não há da parte das corporações e do estado uma preocupação real em reparar a situação.

Quando os homens começam a apresentar suas inexoráveis barrigas aí pelos quarenta e poucos anos, há uma compreensão tácita de que tudo bem, aquilo é compreendido como um índice de prosperidade. No caso da mulher, qualquer coisa que denote desleixo com a aparência é interpretada como sinal de decadência. No ambiente de trabalho e fora dele a mulher é cobrada sobre sua aparência, de maneira sutil, mas devastadora. Isso faz parte de uma estratégia de dominação masculina que o feminismo tradicional ainda não conseguiu desarticular.

E as mulheres ainda ganham, na média, bem menos do que os homens.

No limite, as meninas dos países desenvolvidos nascidas em 1995 — as mesmas que já estão ganhando medalhas de ouro nas olimpíadas — nunca pensarão em ter filhos. A Europa vai morrer caduca como a minha mãe. E não se pode esperar que os homens promovam a mudança. O Walter, por exemplo, foi um homem incomum na nossa geração, abnegou-se e apoiou minha trajetória durante décadas, cuidando da casa e das nossas viagens com muita dedicação, de modo que perdoo, sem nenhum senão, o fato de que agora ele tenha resolvido viver com uma mulher que tem idade para ser nossa filha.

Creio que nem preciserei de todos os dezessete minutos para dizer que existem apenas dois tipos de remuneração: o salário-holerite e o salário-satisfação. Melhor que ambos caminhem juntos. Ao final de tudo não haverá garantia de que você se mantenha lúcida. Preciso dormir. Mas acontece que em algum lugar deste prédio há um neandertal que não consegue superar a idade da descoberta das cantoras negras americanas e toca tudo sempre no último volume.

Meu reino, tudo por um rivotril.

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