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Uma tarde memorável com o mestre Gay Talese

17 dez

Talese é um jornalista muito chique

Vi Gay Talese na Flip 2009, entrevistado por Mario Sérgio Conti, dois ou três dias antes do compromisso que tínhamos em São Paulo.

Fui buscá-lo no hotel e logo notei que o jornalista e sua mulher Nan estavam animados, aprumadíssimos, uma elegância invulgar. Tentei, como sempre faço, quebrar o gelo com small talk. Que não funciona com Talese.

Ele referiu-se a Conti de maneira muito respeitosa, não pareceu-me magoado com aquela pergunta dura sobre a repercussão do livro A Mulher do Próximo em sua vida pessoal.

No caminho, falei-lhes sobre Victor Civita, fundador da Editora Abril, e também sobre a plateia que àquela altura esperava ansiosa pela chegada daquele que é considerado, ao lado de Tom Wolfe, o maior representante vivo do Novo Jornalismo Americano.

Levei Talese até João Gabriel de Lima, então diretor de redação de Bravo!, seu entrevistador daquela tarde. Mostramos a ele uma matéria publicada na edição da revista daquele mês, a propósito do lançamento do livro Vida de Escritor, que compartilho mais abaixo.

Depois da palestra e do almoço com jornalistas, prestes a voltar para o hotel, Talese voltou-se a Nan, limpando o suor da testa, e emitiu um “what a day!”. Pediu-me uma edição dominical do The New York Times, onde havia sido publicado um artigo seu. Consegui um exemplar com o Edson Aran, diretor de Playboy, e Talese ficou feliz da vida.

Foi um prazer ciceronear o casal naquela tarde.

Talese mandou-me este bilhetinho simpático e fez dedicatória carinhosa em meu livro preferido, Fama e Anonimato.

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O elogio do fracasso

Em Vida de Escritor, Gay Talese mostra como se pode converter uma série de insucessos em uma grande reportagem sobre a vida

por Edward Pimenta

O veterano jornalista americano Gay Talese está acostumado com o sucesso. Entre as décadas de 1960 e 1980, escreveu livros que chegaram ao topo da lista dos mais vendidos, fazendo-o conquistar a independência necessária para escolher seus temas: poder, sexo, o triunfo e a derrota, os famosos e os anônimos. Em livros como A Mulher do Próximo e O Reino e o Poder, sempre quis expor a face mais obscura da natureza humana. E para tratar dela nunca dispensou os dramas da vida privada, com personagens que incluem gente comum, não raro perdedores. Ele continua a tratar deles no autobiográfico Vida de Escritor, livro que vem divulgar na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho.

Ninguém melhor que Talese para falar do fracasso — e, eventualmente, transformá-lo em vitória. O jornalista tinha 34 anos quando escreveu o mais célebre artigo já publicado numa revista americana. Enquanto tentava (inutilmente) entrevistar Frank Sinatra para a Esquire, Talese falou com as pessoas próximas ao cantor, que, na época, se via às voltas com acusações de ligações perigosas com a máfia. O resultado do “fracasso” foi o perfil Frank Sinatra Está Resfriado, que revela o que pode acontecer quando o dono da maior voz da América fica gripado. O texto saiu em 55 páginas da Esquire de abril de 1966 e se transformou num clássico do New Journalism, um gênero que floresceu em revistas como Harper’s e The New Yorker, além da própria Esquire, e era marcada pela aplicação de técnicas literárias ao jornalismo.

Foi com esse estilo de reportagem que Talese continuou investindo no fracasso — dessa vez como experiência de aprendizado. Em 1964, sob o título O Perdedor, publicou também na Esquire uma reportagem sobre o boxeador Floyd Patterson, que estava em depressão profunda depois de perder por nocaute, no primeiro assalto, o título de campeão mundial dos pesos-pesados para Sonny Liston. Patterson estava isolado, treinando para recomeçar sua escalada no ringue e entender o significado do próprio declínio.

Vida de Escritor, em muitos sentidos, é a crônica do que se pode ganhar com uma história de insucessos. Hoje, aos 77 anos, Gay Talese lembra como era um garoto tímido, medíocre na escola e assombrado pela condição minoritária de filho de imigrantes italianos numa comunidade vitoriana e repressora como a de Ocean City, em Nova Jersey. Um projeto de perdedor. De certa forma, o homem aficionado por restaurantes de luxo que sempre foi visto impecavelmente vestido nas melhores rodas de Nova York sugere que a profissão de repórter tem muito mais suor e agruras do que glamour.

INSUCESSOS SEM FIM

Durante oito anos, na década de 1990, o autor — apesar de já consagrado — apostou em três projetos que nunca deram em nada. Primeiro quis escrever um livro sobre restaurantes e começou a levantar a história de um deles, localizado num velho prédio do começo do século 20, no número 206 da rua 63, em Nova York. Logo descobriu que outros 12 restaurantes que haviam funcionado ali, ao longo de anos, também tinham falido. Talese preparou então um longo artigo sobre a história do edifício desde o momento da construção, em 1907, até desembocar na série de desastres. Com os manuscritos na mão, ouviu da editora Knopf que não havia interesse em publicá-lo, porque o assunto não tinha o potencial de vendas.

Na mesma época, o episódio da americana Lorena Bobbit, que amputou o pênis do marido com uma faca de cozinha enquanto ele dormia, atraiu a atenção de Talese e, por razões distintas, também de vários intelectuais americanos, como a feminista Camille Paglia. Foi a editora da revista The New Yorker, Tina Brown, quem o autorizou a seguir com a reportagem sobre o que chamou de “saga peniana”. “Lá estava John Bobbit, que era um perdedor em todos os sentidos, perdendo seu membro mais importante”, disse o jornalista sobre o marido castrado. O artigo ficou pronto, mas a editora recusou-se a publicá-lo. Mais um perdedor, mais um fracasso.

Foi por acaso — e o acaso é um tema recorrente em sua obra — que ele sintonizou a TV no jogo final da Copa do Mundo de Futebol Feminino, em 1999, em que se enfrentaram China e Estados Unidos. Depois de um empate sem gols, veio a prorrogação e, por fim, a decisão por pênaltis. Coube à chinesa Liu Ying desperdiçar a cobrança e perder o campeonato. Talese, um amante do beisebol, foi à China para tentar encontrá-la e traduzir num perfil aquele devastador sentimento de derrota que viu na tela. Depois de cinco meses entrevistando pessoas, a matéria nunca chegou a ser concluída.

Ao reunir mais esses três fracassos em Vida de Escritor, Gay Talese continua dizendo que nem só de sucessos se faz jornalismo. E não há como negar isso se acreditarmos que o jornalismo e a literatura são, no fundo, uma grande reportagem sobre a vida.

Colaborou Barbara Heckler.

O LIVRO

Vida de Escritor, de Gay Talese. Tradução de Donaldson Garschagen. Companhia das Letras, 512 págs., R$ 59

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