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Mailer daria palmadas no bumbum das slutwalkers

26 mai

Norman Mailer (1923 – 2007) na capa da Time com Marilyn Monroe, sobre quem também escreveu; intelectuais ou não, todos eram loucos pela Marilyn

Se você ainda nåo conhece o Norman Mailer, sugiro então que comece por The Armies of the Night, ou Os degraus do Pentágono, na tradução brasileira.

Primeiro, é um livro autobiográfico. Mailer fala de Mailer na terceira pessoa.

Trata da Marcha sobre o Pentágono, realizada no verão de 1967, contra a Guerra do Vietnã.

Era uma época em que as marchas nada tinham que ver com a cantilena das minorias “progressistas” ressentidas que se articulam pelo Facebook.

Reparou que hoje há hipernichos de minorias? Lésbicas disfarçadas de sluts, maconheiros ecológicos, peladões amigos dos animais. Tem para todos os gostos.

É por isso mesmo que você deve ler. Para lembrar que um mundo sem tantos babacas é possível.

Tenho 37 anos, portanto ainda estou bem longe dos 40, certo? Não?

Coincidentemente, venho relendo umas coisas, tudo escrito por autores que tinham mais ou menos 40 anos na década de 60.

Os heróis do Woody Allen moram na década de 30. Os meus tinham mais ou menos 40 anos na década de 60.

Norman Mailer fez quase tudo na vida. Casou-se cinco vezes, teve nove filhos, bebeu e tomou drogas por décadas a fio, esfaqueou uma de suas ex-mulheres numa briga e ganhou fama de mau.

Fundou a revistaVillage Voice em 1955 e foi preso na Marcha sobre o Pentágono.

Em 1969 ganhou o National Book Award, no mesmo ano em que candidatou-se à prefeitura de Nova York e perdeu. Faturou o prêmio Pulitzer duas vezes e, o mais importante, tornou-se um dos mais importantes escritores de todos os tempos.

Leia o trecho que escolhi especialmente para você:

“Uma noite sem uma dama de má reputação era como um companhia de ópera sem uma grande voz. Claro, não havia senhoras dessas categoria quando ele (Mailer) entrou na sala. Algumas esposas razoalvelmente atraentes, sem dúvida, e um par de moças, muito jovens para ele, estavam ainda nos últimos estágios de uma espécie de extraordinária escola progressiva e eram inocentes, espirituosamente decentes, alegres, de bochechas vermelhas, idealistas e profundamente isentas do sentido de pecado. Mailer não saberia o que fazer com tais moças; gastara os primeiros quarenta e quatro anos de sua vida num diálogo íntimo, uma verdadeira dialética, com os arrebatamentos, os espectros, as investidas, as máscaras e rosnadelas, os lúcidos talentos do pecado; o pecado era o seu companheiro dileto, sua tônica, seu carcereiro, seu corcel e sua espada, e não estava inclinado a flertar durante uma hora com uma ou outra das alegres moças de dezessete anos, quando elas concebiam a sensualidade apenas como uma ginástica do amor.”

Norman Mailer, The Armies of the Night

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8 mai

Sim, ele foi jovem. Foto: Itáu Cultural

“O fato é que qualquer pessoa com bom conhecimento da Odisseia e da língua inglesa lê Ulisses (de Joyce) num dia de leitura.”

Este é Paulo Francis, em artigo de 1977, na Folha de S. Paulo. Bom, né?

Li no sábado, numa sentada — já Ulisses… tento ler há anos — a boa coletânea das crônicas de Francis, publicadas na Folha de 1976 a 1990, organizadas e apresentadas por Nelson de Sá num livrão caprichado do novo selo editorial Três Estrelas, com posfácio do mais famoso Francis wannabe da atualiadade, o Pondé.

A propósito, a Folha dá hoje (8/5) que o livro entrou na lista dos dez mais vendidos.

É leitura obrigatória para jovens que começam a montar suas bibliotecas. Como, aliás, foi para mim quando lia o Francis na FSP e, mais tarde, no Estadão. Era uma vida pré-web, ir a Nova York não era assim simples, Francis tornou-se uma conexão com o mundo civilizado e indicou leituras importantes.

Fui à minha estante resgatar umas coisas e anotei alguns trechos aqui, acho que você vai gostar. Você também gostará dos diversos nomes que o Francis cita, é um name dropping sem fim, mas tem charme: Norman Mailer, T.S Eliot, Kenneth Tynan, Saul Bellow, Mary McCarthy, Eugene O’Neil, Ibsen, Edmund Wilson, Ezra Pound, Mencken, Arthur Miller, Tennessee Williams, etc.

De fato, ótima tradução do Ivan Lessa

“A meu ver, Capote produziu o único romance contemporâneo americano que me parece moderno, como entendo a palavra, In Cold Blood (1965), que miraculosamente para o leitor brasileiro está traduzido à perfeição por Ivan Lessa, com o título A Sangue-frio”. (Truman Capote, criador do romance moderno da literatura americana, página 196).

“As vidas americanas não têm segundos atos”, escreveu Scott Fitzgerald, que deixou em The Great Gatsby um dos poucos romances comparáveis a A sangue-frio. (Truman Capote, criador do romance moderno da literatura americana, página 201).

Não é o meu preferido do Updike, mas é ótimo

“Couples, que foi publicado no Brasil, mostrava que trocar de mulher (entre casais) tinha chegado à classe média, com vários séculos de atraso. Bidu. E havia, sendo Updike obviamente americano, a cabecinha suja e culpada em face de sexo. Mas culpa episcopal. Igreja meio furreca, para nós, católicos, ou ex, meu caso.” (John Updike, um talentoso escritor sem nenhum caráter, Página 152).

Ontem, conversando com o Robert Greem que hoje é um cara de vídeo, descobri que ele foi revisor/checador do Gore Vidal, um autor que ainda vive, mas perdeu completamente a mão naquele artigo do 11 de setembro e não se recuperou

“Duluth é, com Myra Breckinridge (1968), o que Vidal produziu em que foge ao realismo que o trava em outros romances. Myra é uma comédia de confusão sexual que feministas escreveriam se mulheres soubessem escrever sátiras. Não sabem. Mulheres são todas sérias.” (A criação de Gore Vidal, página 192).

“Domingo à noite jantei com Bertolucci e mulher, num pequeno grupo, e depois na minha casa conversamos até três horas da manhã. (…) Bertolucci, porém, conquistou meu coração ao caçarmos um táxi, na saída do restaurante, quando lhe contei que naquele mesmo restaurante, numa reunião algo careta, eu possesso de uma mistura química inacomodável, vomitei sobre a mesa. (…) Bertolucci fez pior. Ao conhecer Jean-Luc Godard, a quem adora, foi tal a emoção que vomitou sobre Godard. É impossível não gostar de uma pessoa assim.” (Adivinhe quem veio para jantar, página 47)

“Celebridade é prostituição em vários sentidos. A carreira de Jackie Onassis, analisada a frio, foi vender aqueles preciosos sete centímetros anatômicos a um milionário que se tornou presidente dos EUA e, viúva, a um gângster e picareta internacional grego.” (Como vivem os ricos, página 69).

“Não tenho paciência particularmente com a incapacidade de autocrítica do jovem. Ele quer certezas. Isso é produto de uma profunda insegurança, perfeitamente compreensível na juventude, mas, quanto mais cedo o jovem se der conta disso, mais cedo atinigirá a maturidade. E jovem tende à coterie, à claque, a cerrar fileiras em torno de intocáveis, como a Petrobras, Chico Buarque, a capacidade criadora das massas.” ( A aurora da minha vida, página 112).

Um erro cultural grave é afirmar que Nelson revolucionou o teatro brasileiro com Vestido de Noiva. A revolução veio quando Nelson escreveu Doroteia, Senhora dos afogados e principalmente Álbum de família. Foi o período da danação dele. A direita (…) o converteu num pornógrafo, no tarado, no abominável intocável. (Nelson nunca foi um intelectual, página 125).

“Outro dia fui almoçar com Andy Warhol. Mais e mais ele parece uma gigantesca barata descascada. Tem uma fábrica aqui, e senhoras compradoras da Europa olhavam respeitosamente a chacota que Andy faz do pós-modernismo. Sem talento algum, ele é simpático, doce, diz coisas inteligentes (é um entrevistador esplêndido, como sabem os leitores de Interview). Disse a ele que deveria entrevistar Brejnev. Disse que não saberia o que perguntar. Eu disse que isso é que faria a entrevista boa. Um silêncio de ambas as partes.” (Um acordo mundial para suspender tudo, página 133).

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O boxe morreu. Who cares?

12 fev

Tyson manda a direita em Frank Bruno. A imagem é da Allsport UK/Allsport

Na terça-feira (7/2) almocei com Sean Ingle, editor de esportes do site do Guardian. Especialista em redes sociais, ele está interessado em desenvolver novas maneiras de engajar sua crescente audiência. 

Sean vem de uma família de pugilistas. O pai trabalhou como treinador, o tio teve modesta carreira como lutador amador e isso bastou para que se tornasse um devoto do esporte. Aos 37 anos, mantém a forma em treinos esporádicos.

Recordamos os combates entre Frank Bruno — último grande campeão mundial britânico — e Tyson, nas décadas de 80 e 90. Sean tem uma memória prodigiosa, lembrou-se também da luta de Adilson “Maguila” Rodrigues contra Evander Holyfield.

Foi então que expliquei a Sean minha teoria sobre a iminente morte do boxe moderno, essa modalidade que floresceu justamente na Inglaterra, a partir do século 18.

Boxe e literatura

O mundo do boxe inspirou momentos de vivo debate na sociedade, como na vitória de Joe Louis sobre o alemão nazi-simpatizante Max Schmeling, em 1938, ou quando Muhammad Ali, no fim dos 60′s, recusou-se a lutar no Vietnã. 

O debate não se deu no ringue, mas nos jornais e revistas pelas mãos de bons escritores como Norman Mailer, Gay Talese, Pete Ham­ill, Joyce Carol Oates, George Plimpton, David Remnick, Budd Schulberg e A. J. Liebling. Recomendo a leitura deste livro.

Os autores reconheceram não só sua dimensão política, mas também o fato de que o pugilismo – talvez mais do que qualquer outro esporte – é uma potente representação dos limites entre sucesso e fracasso, vida e morte.

Literatura e jornalismo, portanto, colocaram o boxe em outro patamar, envolto num charme que outras modalidades, hoje bastante populares, talvez nunca terão.

Mas a imprensa também contribuiu para alguns dos piores momentos do esporte, ajudando a máfia a construir reputações de lutadores fracos, com o único propósito de fraudar resultados e aumentar os lucros no mercado de apostas.

Coincidentemente, o boxe morreu quando todos temos obrigação de divulgar nossos balancetes repletos das mais nobres intenções de transparência, sustentabilidade e responsabilidade social. 

O boxe, ora com seus insípidos campeões ucranianos, morreu numa época em que a imprensa repensa seu papel e os abjetos reality shows são a principal modalidade de entretenimento televisivo.

O boxe perdeu para os marombados do MMA, sempre engalfinhados no chão como uma bruta máquina de carne de oito patas. A imagem (boa) é do Verissimo. 

O MMA, vocês sabem, é sobre quem é mais rápido para aniquilar o outro com um pisão na cabeça. 

Sean diz que o MMA tem crescido no Reino Unido, mas que ainda está longe de ser uma febre como é nos Estados Unidos e no Brasil.

Eu disse a ele que a morte do boxe tem a ver com a onda de vulgaridade que nos assola.

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