
Anais Nin (Maria de Medeiros) e June Mansfield Miller (Uma Thurman) são os melhores vértices do triângulo amoroso vivido por Henry Miller (Fred Ward) no "drama erótico" Henry & June, dirigido por Philip Kaufman
Para ser bem honesto, meu interesse por literatura começou com Henry Miller (1891 – 1980) e John Updike (1932 – 2009).
É o tipo de confissão que mata o glamour. Desculpa aí. Dizer-me machadiano ou reivindicar intimidade com a obra de autores russos e franceses do século 19 — algo que se faz impunemente – seria mais inteligente e mais chique.
Não me considero um leitor exemplar. Iniciei e depois abandonei o estudo da teoria literária. São muitas as lacunas em minha formação.
Primeiro foi Henry Miller, autor que nunca será considerado universal por causa de sua obsessão sexual. Mas é imenso.
Olha o que diz Norman Mailer: “Ninguém escreveu dessa maneira antes, e ninguém certamente escreverá tão bem. A prosa de Miller é uma torrente, uma catarata, um vulcão, um terremoto [...] um escritor-atleta, um fenômeno, um verdadeiro avatar de energia literária.”
A trilogia Sexus, Nexus e Plexus descobri na estante de casa, ainda muito pequeno. Foi como descobrir o mundo, o sexo, a vida adulta, tudo junto. Jamais fui o mesmo depois do trecho a seguir, tradução meio canhestra, sim, mas inesquecível:
“Ó Tânia, onde estão agora aquela sua boceta quente, aquelas ligas gordas e pesadas, aquelas coxas macias e arredondadas? Em meu membro há um osso de quinze centimetros de comprimento. Tânia, alisarei todas as pregas da sua vulva, cheia de semente. Mandá-la-ei de volta para seu Sylvester com a barriga doendo e o útero virado. Seu Sylvester! Sim, ele sabe acender um fogo, mas eu sei inflamar uma vagina. Enfiarei pregos quentes em você, Tânia. Deixarei seus ovários incandescentes. Seu Sylvester agora está um pouco ciumento? Ele sente alguma coisa, não sente? Sente os remanescentes do meu grande membro. Depois de mim, você pode receber garanhões, touros, carneiros, cisnes e São Bernardos. Pode enfiar pelo reto sapos, morcegos, lagartos. Você pode defecar arpejos ou amarrar uma citara sobre o umbigo. Eu estou fodendo, Tânia, para que você fique fornicada. E se tem medo de ser fornicada em público, eu fornicarei privativamente. Arrancarei alguns pelos de sua vulva e os grudarei no queixo de Bóris. Morderei seu clitóris e cuspirei moedas de dois francos”.
Só muito depois veio Updike.
Lembro mais uma vez o Paulo Francis, numa boutade, bem ao seu estilo: “Ninguém escreve melhor do que Flaubert (John Updike chega perto).”
Em março de 92, a Folha de S. Paulo, a Associação Alumini e a Companhia das Letras (que acabara de lançar no Brasil a tetralogia dos Coelhos, tradução de Paulo Henriques Britto) promoveram um encontro com o autor.
A tetralogia, você sabe, trata da vida de Harry ‘Rabbit’ Angstrom em quatro romances: Rabbit, Run; Rabbit Redux; Rabbit Is Rich; Rabbit At Rest .
Aluno da FAAP, eu estudava comunicação (ou pelo menos fingia bem que), meus professores eram o Máximo Barros, a Sônia Regis e o Rubens Fernandes Jr., para citar alguns dos quais me lembro bem.
Naquela noite, Updike tinha o diplomata Paulo Sérgio Pinheiro como cicerone. No elevador do prédio da Folha, a caminho do auditório, num total acaso, topei com Rogério Menani, então estudante de jornalismo na PUC. Ele depois viria a se tornar meu compadre.
Ao final do papo — é provável que o Arthur Nestrovski estivesse na mesa e, se esteve, deve ter sido encantador como sempre – fomos cercar John Updike para pedir autógrafo e simplesmente ficar perto dele.
Havia um abismo intelectual entre nós. Haverá sempre um abismo intelectual entre nós. Mas é um prazer falar sobre Miller e Updike.
