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The Embrace, uma imagem da Suite Vollard de Pablo Picasso

7 dez

Em tempo, senhoras e senhores, o romanaclê

19 out

Olha a turma: Jacques Lacan, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louis Leiris, Picasso, Fanie de Campan, Valentine Hugo, Simone de Beauvoir e Brassai; embaixo, Sartre, Camus, Michel Leiris e Jean Abier

O roman à clef é aquele livro em que personagens da vida real aparecem na trama sob um nome fictício. O leitor então precisa de uma chave — “clef”, em francês — para entender o que se passa.

Trata-se de uma tradição que remonta à França do século 17, quando os habituées dos salões literários queriam apimentar suas histórias com a inclusão de representações ficcionais de pessoas conhecidas na corte de Luís 14.

O nome mais conhecido é o da escritora Madaleine de Scudery, que escreveu volumosas novelas como “Clélie”, em que o personagem Herminius representa o escritor Paul Pellisson (1624 – 1693) e “Scaurus and Lyriane”, em que aparecem o poeta Paul Scarron e sua mulher, Françoise d’Aubigné, a marquesa de Maintenon.

Como literatura, o grande problema do roman à clef é que muitas vezes o jogo de identificar quem é quem se torna mais atraente do que o livro em si. O que não impediu que muitos autores de talento e prestígio tenham usado o recurso de esconder personagens reais sob nomes falsos em suas obras.

No século 20, o americano Scott Fitzgerald, o francês Marcel Proust e o irlandês Joyce descreveram ambientes sociais cheios de gente importante, mas as referências têm importância secundária em seus projetos estéticos.

Ao analisar a obra de Thomas Mann, o crítico George Steiner diz que em “A Montanha Mágica” (1924), o pensador Georg Lukács inspira os personagens Naphta e Settembrini. Da mesma forma, o músico Arnold Schoenberg é claramente o inspirador do protagonista de Doutor Fausto, Adrian Leverkuhn – e Steiner diz ver ecos do filósofo Theodor Adorno no papel do demônio que rouba a alma do compositor.

Os romances “Um Gosto e Seis Vinténs” (1919) e “Destino de um homem” (1930), do escritor britânico Somerset Maugham, retratam veladamente passagens das vidas do pintor Paul Gauguin e dos romancistas Thomas Hardy e Hugh Walpole.

Um tipo mais comum de roman à clef pode ser encontrado em livros como “Contraponto” (1928), de Aldous Huxley, e “Mandarins” (1954), de Simone de Beauvoir, nos quais os personagens disfarçados são imediatamente reconhecidos, mas apenas por um círculo de intelectuais próximo aos autores.

No primeiro caso são os escritores britânicos D.H Lawrence e Middleton Murry, que detestou se ver retratado como o inescrupuloso editor Denis Burlap. No segundo aparecem Albert Camus, Arthur Koestler, Jean-Paul Sartre, Nelson Algren e a própria Simone, de quem, aliás, tratamos aqui em post anterior.

A Woody Allen o que é de Woody Allen

6 out

O Hemingway e o Scott Fitzgerald do filme são meio caricatos demais para o meu gosto

Não dá para criticar Meia-noite em Paris, de Woody Allen, por aquilo que ele não é. Ora, é assumidamente midbrow. Um filme muito bonitinho, leve. Aquele americano que tem uma casquinha de verniz cultural vai ao delírio, a identificação é imediata, a sobreposição dos repertórios é quase perfeita.

Mas, ao criticar um certo “complexo da Golden Age” – segundo o qual algumas pessoas consideram o passado melhor do que o presente – Woody Allen quer dizer, entre outras coisas, que ele próprio tem a mesma estatura de Hemingway, Picasso, Fitzgerald, Buñuel.

Não tem.

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