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A pornografia “do bem” de Alain de Botton

20 mai

Essa é?

Alain de Botton já escreveu sobre felicidade, amor e religião. Agora ele quer investigar a pornografia, na crença de que pode  transformá-la numa indústria moral e nobre. Vi no Independent.

Bom, em verdade, filósofos sabem que não “transformam” nada. Já os banqueiros…

Autor de best sellers como “A Arquitetura da Felicidade” e “Como Proust Pode Mudar sua Vida”, Botton diz que pretende reunir na sua School of Life figuras da pornografia e das artes para identificar uma “nova pornografia”, que seria mais socialmente aceitável.

“Graças à internet, o mundo moderno está inundado por pornografia. Essa pornografia representa uma ameaça não só a quem a produz, em relação à exploração envolvida, mas também àqueles que a consomem, pelo conflito entre valores codificados pela pornografia e suas responsabilidades e os valores do resto de suas vidas”, disse.

Os gregos antigos, diz Botton, entendiam que não havia necessidade de ter que escolher entre “ser humano e ser sexual”.

De fato, não há necessidade de fazê-lo no século 21.

Essa é? – ”The Wines of Gala and of God” (“Les Vins de Gala et du Divin”), de Salvador Dali

Mas fico pensando como seria a pornografia do bem? Haveria nu? Frontal ou só bumbum? Textos para “senhouras”? Citações do Velho testamento? As chacretes são consideradas? Sexo maduro naturista? Quem sabe as fotos caseiras instagram captadas com amor no ambiente doméstico estariam liberadas?

Imagens pornográficas, o Botton sabe, são tão velhas quanto a fotografia. E as literárias tão velhas quanto a literatura.

O julgamento sobre se é moral ou não, num estado laico, está na cabeça de quem as recebe  – e porventura busca.

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“Shame” não passa de um filminho pornosoft puritano

12 abr

Michael Fasssbender praticando o esporte favorito

Asssisti, relutante, ao filme Shame, de Steve McQueen, com Michael Fasssbender no papel principal.

É sobre um homem bonito e lúgubre que sofre com a vida sexual. Ele acha que faz sexo demais e, de fato, é bastante para os padrões do trabalhador brasileiro. Aparece em cenas masturbação, sexo com prostitutas, sexo virtual e felação masculina.

Tristeza quase caricata, aquele fundo de poço dos aditos em heroína, orgasmos agônicos. Quando ele chama uma colega de trabalho para um date — ele tem um bom emprego — não sabe pedir o vinho e nem entabular conversa. E depois brocha fragosamente — o argumento do roteiro sugere um tanto canhestramente que ele não consegue fazer sexo quando “pinta sentimento”. Chora, enfim.

O subtexto geral de que ele é vítima da indústria pornográfica e que está lutando contra uma compulsão em favor daquilo que intui seja adequado à vida burguesa — o amor monogâmico —  é bem puritano. A certa altura ele dá uma bronca na irmã depressiva-suicida por ela estar fazendo sexo com um homem casado, que “tem uma família”.

Os libertinos não foram criados pela pornografia e nem pela internet. Depois eu falo sobre o que a internet criou.

Senão vejamos o que Henry Spencer Ashbee escreve na abertura de seu diário, My secret life, publicado 1890 sob o singelo pseudônimo de Walter.

“Compulsando meus diários, dou-me conta de que possuí mulheres de 27 impérios, reinos ou países, de mais de 24 nacionalidades, notadamente todas as da Europa, à exceção da Lapônia. Copulei com negras, mulatas, quadraronas, gregas, turcas, egípcias e outras criaturas totalmente depiladas; conheci biblicamente até squaws do Canadá e Estados Unidos, lugares onde a civilização ainda não chegou. Que Deus me dê uma longa vida para permitir-me operar novas escolhas que virão desenvolver ao infinito as variações do glorioso tema que é a mulher.”

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Pornografia é mais poderosa quanto mais próxima do real

6 dez

Catherine Millet, a mulher da foto acima, tornou-se mundialmente conhecida com o polêmico "A Vida Sexual de Catherine M.", livro em que a autora deixou cair a máscara de respeitada crítica de arte ao expor publicamente os detalhes de sua movimentada vida sexual, descrevendo de forma expícita uma sequência de relações sexuais que envolviam desconhecidos, grupos de até 150 pessoas e os mais variados cenários, entre clubes, beiras de estradas, praças públicas

A característica essencial de um filme pornográfico é a ausência de elipses, o tempo contínuo: o tempo do ato sexual filmado é igual ao tempo de um ato sexual real.

A definição acima é do pensador italiano Umberto Eco. Está em um livrinho chamado Seis passeios pelos bosques da ficção.

Uma das convicções trazidas pela internet é a de que, além dos filmes, também as imagens pornográficas estáticas são mais poderosas quanto mais próximas do real.

Numa época em que as pessoas produzem e compartilham aos milhões suas próprias imagens, uma foto que se pretenda pornográfica não pode subestimar a força de um registro amador.

Tecnicamente, uma boa imagem pornográfica não pode conter exageros cosméticos e atitudes ostensivamente poseurs.

A fotografia é e sempre será uma representação. Mas a melhor imagem pornográfica é a que mais se aproxima da crueza de um retrato amador.

As fotos pornográficas amadoras são pouco elaboradas do ponto de vista narrativo. Querem contar um mínimo de história, são primitivas em sua intenção de registro factual de uma situação real de sexo.

Ou pode ser o simples flagrante de um momento de intimidade, sem preocupação com a qualidade técnica do registro, como no caso dos despretensiosos self shots de Scarlett Johansson.

A repercussão dos self shots mostra que a qualidade técnica é cada vez menos relevante do que, digamos,  a “intenção discursiva” da imagem.

A estética da foto pornográfica da web está, aos poucos, chegando ao mainstream.

Ai Weiwei e suas weiweizetes nuas não são pornografia?

19 nov

O artista dissidente chinês Ai Weiwei, alvo de uma acusação de fraude fiscal, anunciou nesta sexta-feira à AFP que é alvo agora de uma investigação por pornografia, que diz respeito a antigas fotos em que posou nu.

“Ontem (18/11)  levaram meu assistente a uma delegacia de polícia e perguntaram a ele por que havia feito essas fotos, e disseram claramente a ele que sou alvo de investigação por pornografia”, declarou Weiwei.

Weiwei, meu caro, pornografia é aquilo que as pessoas acham que é pornografia. E, para um homem secular, essa não é mais uma questão.

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