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Uma dívida com o Paraguai

18 mar

Os inenarráveis Sobranie of London, minha dívida pessoal; ainda os há?

Temos uma dívida com os paraguaios.

Não há um entendimento muito claro entre historiadores sobre o saldo da Guerra do Paraguai, finda há 142 anos. Durante o regime militar, nos contavam na escola a versão que glorifica a vitória brasileira.

Depois, autores marxistas revisaram a história oficial, reabilitando a figura do ditador Solano Lopez como um líder antiimperialista e dizendo que o Brasil agiu a mando da Inglaterra.

Mais tarde, soubemos que Lopez não tinha propósitos assim tão nobres e que a guerra teria sido motivada muito mais por questões regionais do que por força do império britânico. A Inglaterra, pelo contrário, teria tentado mediar a paz.

Mas há um consenso sobre o fato de que nossos militares, talvez por inépcia do almirante Tamandaré, prolongaram a batalha muito além do razoável, desencadeando milhares de mortes.

(A gente comprava adesivos dos patronos das nossas forças armadas na papelaria para colar nos trabalhos de História. Eu tinha um do almirante Tamandaré).

Matamos paraguaios para cacete.

Fato que pode ter definido a total falta de vocação do país para qualquer coisa, até hoje. O país transformou-se numa terra de ninguém, sem indústria, sem política fiscal, sem nada.

De lá para cá, continuamos vendo o Paraguai como uma insignificância. Não damos crédito ao que vem de lá, virou zombaria em comercial de TV, “la garantía soy yo”.

Na década de 80, quando nossa economia era fechada à concorrência dos importados, cada um tinha um contrabandista “de confiança”. Ele sempre tinha uísque, cosméticos (o bronzeador rayito de sol e o creme de tartaruga eram hits), chocolate suíço e outros supérfluos provenientes do Paraguai.

“De confiança” porque havia muita falsificação. E aí o Paraguai passou a ser, entre nós, sinônimo de fraude, de lixo, de coisa pouco confiável.

Quando visitei a Assunção, em 1995, ainda era, de certo modo, uma terra arrasada.

Depois de horas e horas de ônibus, cruzando o interior do país, parando em cada vilarejo e observando as pobres mulheres subindo e descendo com suas matulas repletas de chipas quentes e K7s dos Carapegueños, chega-se a Assunção, uma cidade estacionada no tempo.

No teatro municipal havia uma peça “ousada” com o sugestivo nome Ab Ovo Diet Semidescremado. O que todos na plateia entendiam como subversão era, em verdade, uma provocação pueril, fruto de absoluta imaturidade política.

Um sentimento de pena.

Senhora dos Afogados: plágio ou paráfrase?

18 jan

Nelson Rodrigues e Eugene O'Neill: as peças Senhora dos Afogados (1947) e Mourning Becomes Electra (1933) têm o mesmo argumento

De quando em quando alguém sugere, maldosamente, que a peça “Senhora dos Afogados”, publicada por Nelson Rodrigues em 1947, seria fruto de um plágio.

A peça brasileira é praticamente igual a “Mourning Becomes Electra”, de 1931, do dramaturgo americano Eugene O’Neill, reconhecidamente um dos grandes ídolos de Nelson.

A diferença está na cena final, em que inverte-se uma situação entre os personagens.

O crítico Sábato Magaldi, maior estudioso da obra de Nelson, disse em 1959 que Nelson Rodrigues fez uma paráfrase, ou seja, copiou o argumento da peça, com o cuidado de modificar todo o texto. Demonstrando honestidade intelectual, Nelson nunca negou a “apropriação”.

Numa época em que os pós-modernos discutem o conceito da autoria, é bom não confundir as coisas. Não há originalidade em enredos teatrais, mas elaborações e reelaborações que vêm sendo feitas há séculos, desde os gregos.

Aliás, o próprio Eugene O’Neill, neste caso, fez uma paráfrase de Orestéia, de Ésquilo. Faça a comparação dos textos do Nelson e do O’Neill nos links abaixo:

Senhora dos Afogados

Mourning Becomes Electra

Letícia Colin, versão GeraçãoY da Bonitinha, mas ordinária

10 jan

Maria Cecília (Letícia Colin) na piscina com cachorro peludo é a estrela de Bonitinha, mas ordinária (2009), versão para o cinema do diretor Moacyr que também tem no elenco os talentosos Leandra Leal e João Miguel

Nelson Rodrigues e Edward Albee em filme raro

9 jan

Filme dirigido pelo dramaturgo João Bethencourt, patrocinado pelo Consulado dos EUA. João chegou a lamentar que a fita estivesse perdida.

João entrevistou Nelson Rodrigues (áudio em português) e o dramaturgo norte-americano Edward Albee (áudio em inglês). A versão integral foi localizada no Arquivo Nacional dos EUA, por Carlos Fico.

No segundo trecho, NR diz não dar a minima para a posteridade. “Acho que serei esquecido, digo isso sem charme. Os esquecidos são os unicos que realmente descansam em paz”.

Nelson Rodrigues, 100 anos, nosso Dickens do subúrbio

3 jan

O jornalista, cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues

 
Nelson Rodrigues (1912-1980) mostrou aos brasileiros como era o Brasil, em linguagem simples e direta. Ninguém mais fez isso tão bem como ele.

No ano em que completaria 100 anos – depois de intensa relação de amor e ódio com a intelectualidade brasileira — a obra de Nelson conquista certa unanimidade, a mesma que ele, ironicamente, considerava burra.

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Na noite de 28 de dezembro de 1943, a nata da elite intelectual carioca — embaixadores, escritores, poetas e jornalistas — lotou o Teatro Municipal do Rio de Janeiro para assistir à estreia de Vestido de Noiva. O autor, o então jovem dramaturgo Nelson Rodrigues, de 31 anos, passou todo o tempo na antecâmara de um camarote, apavorado, ora de frente, ora de costas para o palco, a úlcera pegando fogo. Ao término do primeiro ato, duas palmas foram ouvidas. “Estou frito”, pensou Nelson. Acabou o segundo ato e as palmas minguaram. Nem as irmãs do autor aplaudiram. Ao fim do último ato, o pano caiu, e com ele um silêncio esmagador. Algumas palmas foram ouvidas, e outras, e mais, aumentando até o teatro ser tomado por um estrondo de aplausos frenéticos que ecoou por minutos.

Nos dias seguintes, Nelson foi acolhido por aquela elite intelectual. O poeta Manuel Bandeira e os críticos Álvaro Lins e Décio de Almeida Prado, que conheciam o texto, já haviam feito elogios públicos antes da estreia. Gilberto Freyre, Augusto Frederico Schmidt e Guilherme Figueiredo logo engrossaram o coro de admiradores. Mesmerizados com o que viram — um show de 132 efeitos de luz, 140 mudanças de cenas e 32 personagens conduzidos pelo diretor polonês Ziembinski —, Otto Maria Carpeaux, Carlos Drummond de Andrade e Alceu Amoroso Lima juntaram-se àqueles que passaram a ver em Nelson a grande novidade do teatro brasileiro.

Era isso e mais. Com Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues entrava para o clube dos pensadores brasileiros, pertencente a uma geração — a dos anos 30 — que achava importante decifrar o país. Nos anos anteriores ao seu primeiro sucesso nos palcos surgiram as três obras magnas dessa corrente: Casa Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Hollanda, e Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Júnior. Nelson viu-se nesse time atacando em duas frentes por muito tempo desprezadas pelos estudiosos, pela distância que guardavam do mundo acadêmico: a crônica de jornal e o teatro.

Em ambos os casos, interessava-lhe menos o estilo rebuscado do ensaio e mais a linguagem direta das ruas. Pode-se dizer que Nelson fez a crônica de seu tempo mesmo quando escreveu teatro. Nas duas formas, ele teve o mérito de resumir, de forma acessível, o Brasil para os brasileiros. Mas será que ele próprio se levava a sério como pensador das coisas brasileiras? A crítica de teatro Barbara Heliodora acha que sim. “Ele levava sua obra muito a sério, e ela revela que ele tinha, mesmo que não verbalizados, certos princípios dominantes para sua visão das coisas”, diz.

O jornal como princípio de tudo

Nelson é resultado da sucessão de revezes que marcou sua vida pessoal e do jornalismo que praticou desde cedo. Fumava quatro maços de cigarro ordinário por dia. Ficou tuberculoso aos 23 anos. Era cardíaco, enxergava muito mal e cultivou uma úlcera durante quase toda a vida. Foi repórter policial, editorialista político, cronista esportivo e autor de folhetins, crônicas, contos, romances, novelas e peças teatrais. Começou a escrever teatro premido pela falta de dinheiro, mas logo foi tomado de ambição literária. A partir de então, seu objetivo passou a ser o reconhecimento dos grandes intelectuais da época — que ele atingiu ainda jovem, no episódio descrito no início desta reportagem.

Nelson sempre esteve no jornal — e o jornal, em sua época, era o ponto de encontro dos intelectuais. Suas colunas e crônicas misturavam literatura, colunismo social, crítica literária e comentários políticos. Fustigava seus desafetos publicamente. Até Otto Lara Resende, de quem era amigo e admirador, foi alvo da sanha rodrigueana. De acordo com Victor Hugo Adler Pereira, professor de literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o jornalismo não somente atraía uma parcela da intelectualidade que desejava interferir nos rumos da vida pública, como também oferecia possibilidades de ganho aos jovens intelectuais. “Durante os anos 50 e 60 pode-se reconhecer que a consagração pública de alguns poetas e escritores de peso, como Drummond, Cecília Meireles e até mesmo Clarice Lispector, deveu-se, em parte, à atuação nos jornais como cronistas”, afirma. Segundo o dramaturgo Caco Coelho, que coligiu num livro os primeiros escritos do autor, Nelson não via diferença entre literatura e jornalismo — e naquela época ela, de fato, quase não existia.

Como era o Brasil de Nelson?

O que torna a obra de Nelson relevante para entender o país em seu tempo é que ele buscou o chamado “Brasil profundo” no subúrbio carioca. A chamada literatura regionalista, contemporânea dos grandes ensaístas Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado Júnior — e que também tentava, a seu modo, “explicar” o país —, se debruçava sobre o Brasil rural. Nelson era eminentemente urbano. A partir de A Falecida (1953) surge no teatro uma parcela da sociedade quase invisível na produção cultural nacional: a classe média, até então só focalizada por Lima Barreto. Para Fábio de Souza Andrade, professor de literatura da USP, Nelson tinha faro e pena de caricaturista e, em suas mãos, o subúrbio do Rio sobrevive à pesada estilização por trás do moralismo histriônico. “Nelson Rodrigues tinha alguma coisa de vitoriano deslocado, de Dickens da Pavuna, sem demérito para nenhum dos dois. A atualização de arquétipos míticos e uma linguagem sensível às imagens fazem do seu teatro coisa difícil de igualar”, diz.

Em sua visão do subúrbio, Nelson incorporou até Sigmund Freud, o que era extremamente ousado para a época. “Nelson, mesmo sem dominar em profundidade as lições psicanalíticas, tinha do assunto aquela informação genérica, acervo de todo cidadão de conhecimento mediano, que autorizava a tratar de incesto e assuntos familiares”, afirma o crítico Sábato Magaldi. Foi por causa disso que uma peça como Álbum de Família (1945), que levou o incesto para os palcos e inaugurou, nas palavras do próprio Nelson, a fase do “teatro desagradável”, causou tanto escândalo e foi proibida por duas décadas. A influência freudiana também está em Anjo Negro (1947), na relação incestuosa entre a jovem Ana Maria e seu pai presumido, o negro Ismael; e em Senhora dos Afogados (1947), na paixão de Moema pelo próprio pai. O mesmo vale para Vestido de Noiva, em que duas personagens mortas, Alaíde e Clessi, enunciam com liberdade — justamente porque mortas — o plano do inconsciente.

O Brasil de Nelson era, assim, cosmopolita, de temática urbana e ligado às idéias de seu tempo. Mas havia mais. Como bom cronista, ele resumiria o país numa frase de efeito que hoje é um slogan sobre o Brasil tão citado quanto o “país do homem cordial”, de Sérgio Buarque, ou o “país das idéias fora do lugar”, de Roberto Schwarz — um dos muitos críticos das posições políticas do autor durante o regime militar. Nelson é autor da expressão “complexo de vira-latas”, que surgiu durante a cobertura da Copa do Mundo de futebol, em 1958. A epopeia do Brasil em busca de seu primeiro título mundial parece feita sob medida para um manual de sociologia — ou para ilustrar o livro Casa Grande & Senzala.

Oito anos antes, o Brasil havia perdido a Copa do Mundo para o Uruguai, derrota atribuída na época a dois jogadores, por acaso, negros — o goleiro Barbosa e o lateral Bigode. Na Copa de 1958, coincidência ou não, o Brasil definiu um time titular com dez jogadores brancos e um único negro — o botafoguense Didi, inegavelmente o grande craque do país na época. No banco, nas primeiras partidas, ficaram o mulato Garrincha e o negro Pelé. Quando os dois entraram em campo, a partir do terceiro jogo, o time passou a ganhar todos os jogos e conquistou o título. Uma fábula destinada a ilustrar a obra de Gilberto Freyre, para quem o Brasil, no futuro, deixaria de considerar a mestiçagem uma desvantagem para glorificá-la, orgulhando-se deste traço da identidade nacional. Nas suas crônicas, Nelson fez, por meio do futebol, com que o país se orgulhasse de ser um caldeirão de raças. Nesse ponto, é interessante notar que seu irmão, Mário Filho, uma figura estelar na crônica esportiva, é autor do clássico O Negro no Futebol Brasileiro (1947).

Por que não temos mais um cronista como ele

Uma explicação possível é que o ambiente cultural no Brasil mudou bastante. Na época de Nelson, as circunstâncias eram bem diferentes das que vivemos hoje.

• O Brasil era pequeno, tudo acontecia no Rio de Janeiro. Nos anos 30, a então capital federal contava com pouco mais de 2 milhões de habitantes, e era ali que circulavam todas as discussões sobre a formação de um ideário nacional. Além disso, estava em curso na época um projeto urbanístico que expandiu os subúrbios cariocas, levando sua cultura — as modinhas, as serestas de violão, os cordões carnavalescos, o reisado, as brigas de galo — para o centro, para o universo da elite intelectual, e foi desse universo que Nelson extraiu a atmosfera de suas obras.

• A imprensa escrita tinha uma tremenda influência no meio intelectual. Hoje a força do jornal é relativamente menor. Ganharam prestígio as universidades, que passaram a ser as instituições de produção e intercâmbio de conhecimento. Surgiram também outros meios de comunicação — as revistas, a TV e depois a internet. No que se refere à internet, não deixa de ser curioso que os blogs tenham desenvolvido novos formatos de crônica, baseadas quase sempre num certo intimismo confessional.

• No mundo globalizado, os intelectuais não têm mais a pretensão de resumir o país em ideias básicas. Nunca mais surgiram ensaístas — ou cronistas, ou dramaturgos — com a pretensão de decifrar a alma brasileira simplesmente porque hoje ninguém mais busca isso.

Tudo isso é verdade, mas nenhuma dessas razões oculta a evidência mais simples de todas — a de que gênios são mesmo raros. Por enquanto, embora inúmeros talentos do jornalismo e do teatro tenham surgido, nenhum deles suplantou o artista múltiplo que foi Nelson Rodrigues. Na história do pensamento brasileiro, Nelson já foi pulha, já foi santo. Mas, como ele escreveu certa vez, “o gênio, não sei por quê, é mais difícil do que o santo ou o pulha”.

Uma versão deste texto foi publicada originalmente na revista Bravo! em julho de 2007

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