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A história do homem que se viu traído por Åsne Seierstad

12 dez

Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio nem há no inferno ferocidade como a de um homem desprezado

Uma das coisas mais interessantes em meu trabalho são as oportunidades de conhecer gente talentosa.

Åsne Seierstad, a loira da foto acima (pronuncia-se ósne zoierstád), é uma jornalista norueguesa licenciada em filologia russa e espanhola e em história da filosofia pela Universidade de Oslo. Cobriu a invasão do Afeganistão e a Guerra do Iraque em 2003.

Seus trabalhos renderam dois livros: O Livreiro de Cabul e 101 dias em Bagdá, ambos publicados pela Record no Brasil.

Há alguns anos, estivemos juntos em São Paulo num encontro em que ela falou sobre como foi viver durante três meses na casa de uma família afegã, assunto do best-seller O livreiro de Cabul.

Ela lembrou quando começou a frequentar, em Cabul, uma das livrarias de Sha Mohammed Rais, o livreiro que no livro recebeu o nome fictício de Sultan Khan.  

O fato é que Åsne viveu três meses na casa de Rais, segundo ela ”um defensor da arte e da cultura afegãs que continuou a vender livros apesar das restrições do regime talibã.”

Quando publicou O livreiro, Åsne revelou as intimidades da família Rais, destacando o tratamento que o homem reserva às mulheres da casa. 

A gente conhece a história. Há dois tipos de feministas: as que acham que a vida dura imposta às mulheres pelo Islã é cultural e deve ser respeitada e as que acham tudo isso um absurdo.

E não é que Sha Mohammed Rais – um homem que obviamente não conhece e tampouco quer entender as bases do jornalismo ocidental — sentiu-se traído (você também se sentiria, convenhamos), ficou furibundo, e quis contratacar processando Åsne e publicando um livro chamado patético chamado Eu sou o livreiro de Cabul (Bertrand Brasil)?

Lembrei da máxima de William Congreve, um pouco modificada: ”Não há no céu fúria comparável ao amor transformado em ódio nem há no inferno ferocidade como a de um homem (uma mulher, no original) desprezado.”

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