Simplesmente brilhante o perfil do repórter Jake Adelstein, escrito por Peter Hessler para a New Yorker (9/1).
Adelstein, nascido no Missouri, é o primeiro americano a trabalhar como repórter de polícia no Yomiuri Shimbun – o maior jornal do Japão, com mais 15 milhões de exemplares diários. Tornou-se um dos maiores especialistas na cobertura de organizações criminosas no Japão e vive em Tóquio sob proteção policial.
Ao traçar o perfil do repórter — um homem extravagante, ficamos logo sabendo — Hessler oferece uma ampla visão das atividades da máfia japonesa:
- A polícia estima haver mais de oito mil membros, contra cinco mil da Mafia na America, no auge
- Membros da Yakuza especulam no mercado imobiliário e operam fundos de investimento
- Há suspeitas de ligação entre a Tokyo Electric Power Company (TEPCO), dona dos reatores nucleres de Fukushima, e a organização criminosa Matsuba-kai
Uma boa parte do perfil enfoca a figura do mafioso Tadamasa Goto (poderoso, tinha participação no capital da Japan Air Lines) e, de quebra, revela os hábitos dos yakuza.
Em geral, têm tatuagens pelo corpo todo, bebem exageradamente e há frequente abuso de drogas injetáveis. Hepatite C e cancêr no fígado são corriqueiros.
Quando um yakuza desagrada seu chefe é comum haver automutilação (em geral, decepam o dedo mindinho) em sinal de arrependimento.
Goto diz em seu livro de memórias, à certa altura, que “bebeu o suficiente para destruir três fígados”. Adelstein deixou oYomiuri Shimbun quando o jornal começou a vetar suas matérias sobre Goto. Mas continuou investigando e descobriu que o mafioso teria ido aos Estados Unidos fazer um transplante de fígado no U.C.L.A. Medical Center, depois de firmar um trato com o F.B.I., prometendo entregar outros yakuza.
Naquele ano, Hessler apurou que 108 americanos morreram na fila do transplante de fígado.
Uma aula de jornalismo. Vale buscar e ler tudo.
