Os hipsters venceram

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Um dia iria mesmo acontecer. Na hora de empacotar as compras no supermercado, a moça do caixa diria, tentando não ser ostensiva em seu ar triunfal, que as sacolas de plástico acabaram. Acabaram para todo o sempre.

A APAS (Associação Paulista de Supermercados), o Governo do Estado de São Paulo e as principais redes de supermercados assinaram um acordo que proíbe o uso das sacolas em todas as lojas a partir de 25 de janeiro. “Vamos trocar as sacolas plásticas por um mundo melhor” é o mote.

Em alguns lugares, como o Extra da praça Panamericana, já acabou. Um filme passou pela minha cabeça hoje (15/1).

Em 2008, no estado da Califórnia, vi um moço de vinte e poucos anos, barba ruça cuidadosamente desalinhada, camisa xadrez e calça skinny, portando uma sacola de algodão — mas poderia ser de cânhamo — com o lettering “I am not a plastic bag”. No interior da sacola, alguns poucos produtos orgânicos, leves, perfeitamente acomodados de modo a permitir ao dono um confortável caminhar de volta para casa.

Naquele mesmo supermercado, na fila ao lado, eu, o ogro elementar, o Cro Magnon fundamental. Adquirindo toda sorte de supérfluos que não vemos nas gôndolas brasileiras. De sacolas em punho, roguei por um taxi e, enquanto o esperava, vi o moço passar com seus orgânicos numa bicicleta pequenina, com o banco espichado para cima, nunca tinha visto uma daquelas.

Alguma coisa tinha mudado, definitivamente. Não tardou para que muitos clones daquele jovem rapaz americano fossem vistos nas ruas de Pinheiros. Eles quase sempre têm namoradas com as quais “dividem” apartamento. Caminham lado a lado, bem sintonizados, fazendo compras com um propósito outro, são consumidores conscientes,  conhecem o valor político de um ato de consumo.

Em breve, teremos restaurantes em que eles pedirão exclusivamente comida de origem local. Vegetais orgânicos produzidos em lajes verdes do Butantã. Frango com carteira de identidade. A carne bovina será gradativamente vista como fruto de um assassinato.

Você já viu o sitcom Portlandia, com a ótima Carrie Brownstein? “Esse frango é criado na zona oeste de São Paulo?”, alguém está em vias de perguntar. Empresas que não adotarem prontamente a cartilha serão espinafradas nas redes sociais e vão se dar mal.

Sou do tempo em que o feijão nos Supermercados Paulista era vendido a granel e colocado num saco de papel pardo. (Você podia mergulhar as duas mãos nos pequenos silos dos grãos em busca daquela sensação deliciosa bem mostrada no filme da Amelie Poulain, hoje um ícone do repertório hipster).

E depois todas as compras eram embaladas num saco de papel pardo mais grosso, na boca do caixa. Com o passar do tempo, os sacos de papel foram substituídos pelos de plástico. Naquela época eles nos pareceram mais ecológicos, veja você. 

As sacolas plásticas passaram a ser reutilizadas para coletar todo o lixo da casa. Em pouco tempo tornou-se obrigatório, uma questão de higiene.  E agora, como faremos?

Sou do tempo em que o sonho da classe média era ter um Monza. E isso deve ter moldado meu caráter. Veja o meu amigo Matthew Shirts, por exemplo, tornou-se um pedestrianista. Caminhar até o trabalho é melhor para a saúde, melhor para o trânsito caótico de São Paulo, melhor para tudo. E eu simplesmente me sinto nu se não estou a bordo de um automóvel.

Os hipsters venceram.