Jayson Blair, de jornalista em desgraça a pretenso guru

Um clássico do fake

Um viajante encontra três cortadores de pedra ao longo da estrada e pergunta a um deles: “O que você está fazendo?”. O homem responde: “Estou cortando pedra”. Ao segundo, a mesma pergunta: “Estou fazendo uma pedra angular”. Mas quando a questão é feita ao terceiro homem vem a seguinte resposta: “Estou construindo uma catedral”.

A historinha acima, brilhantemente descrita no livro O Reino e o Poder (Companhia das Letras, 560 págs.), do jornalista americano Gay Talese, era contada pela grande dama do jornal The New York Times, Iphigene Ochs Sulzberger, avó do atual publisher, para explicar que a força do Times vem do trabalho de construtores de catedrais e não de meros cortadores de pedra.

Talese descreve o NYT como uma senhora liberal, sóbria e poderosa, que exerce influência nos hábitos e costumes da sociedade americana. As palavras impressas nas páginas do jornal têm o poder de mexer com os mercados mundiais e depor chefes de Estado no Terceiro Mundo.

O Times tem motivos de sobra para ter, aos 160 anos, os cabelos bem grisalhos. Construir catedral é missão que não tem fim. 

No momento estão gastando muita energia na transição digital, especialmente em seu complexo — e aparentemente muito bom — paywall. Os primeiros resultados parecem animadores, mas a vida continua dura como, aliás, para todo mundo.

Quando visitei a redação pela primeira vez, em 2003, com o livro de Talese embaixo do braço, entrar no edifício do jornal, em Manhattan, era uma operação.

Os atentados terroristas de 11 de setembro e as ameaças de bomba e sabotagem preocupavam aqueles que trabalhavam no prédio, na rua 43, quase esquina com a Broadway.

O saguão de cores austeras ficava guardado pelo busto do patriarca Adolph Ochs, que hoje mudou-se para o amplíssimo lobby da nova sede do jornal, toda modernosa.

Era tarde de domingo, meu contato deu-me um tour pela redação vazia. Havia um ou outro cobrindo a rodada de beisebol e futebol.

Era o auge do escândalo Jayson Blair. Quem lembra? Perguntei sobre o assunto, ele desconversou.

Durante quase dois anos, o jovem jornalista negro que cobriu, entre outros, o famoso caso do franco atirador em Washington, escreveu matérias inventadas, enviadas de lugares onde nunca esteve.

Foi um estrago na imagem do jornal.

Ao que tudo indica, o mau jornalismo foi praticado sob as vistas grossas de seus superiores. Rolaram as cabeças dos veteranos Howell Raines e Gerald Boyd, respectivamente diretor e chefe de redação, dos quais agora resta a lembrança nas fotos da galeria dos jornalistas premiados.

A gafe deitou momentaneamente o topete do Times. À demissão de Blair, seguiram-se quatro páginas de mea culpa e criou-se um novo departamento de checagem. Os tablóides New York Post e Daily News, vendo o embaraço do tradicionalíssimo concorrente, deitaram e rolaram com piadinhas e provocações.

O próprio Gay Talese, na época, chamou Blair de terrorista e detectou racismo no episódio. “O diretor de redação era um homem branco do sul querendo mostrar virtudes igualitárias em relação às pessoas negras”, disse.

O professor de jornalismo do Marist College, Modele Clarke, com quem tive longa conversa, dizia que um mau profissional como Blair poderia ter prejudicado a vida de colegas negros talentosos com a má conduta.

Nada como um dia após o outro.

Hoje Blair botou banca como consultor pessoal e de carreira.

Olha aqui o site do moço: http://www.noomii.com/users/jayson-blair