Uma dívida com o Paraguai

Os inenarráveis Sobranie of London, minha dívida pessoal; ainda os há?

Temos uma dívida com os paraguaios.

Não há um entendimento muito claro entre historiadores sobre o saldo da Guerra do Paraguai, finda há 142 anos. Durante o regime militar, nos contavam na escola a versão que glorifica a vitória brasileira.

Depois, autores marxistas revisaram a história oficial, reabilitando a figura do ditador Solano Lopez como um líder antiimperialista e dizendo que o Brasil agiu a mando da Inglaterra.

Mais tarde, soubemos que Lopez não tinha propósitos assim tão nobres e que a guerra teria sido motivada muito mais por questões regionais do que por força do império britânico. A Inglaterra, pelo contrário, teria tentado mediar a paz.

Mas há um consenso sobre o fato de que nossos militares, talvez por inépcia do almirante Tamandaré, prolongaram a batalha muito além do razoável, desencadeando milhares de mortes.

(A gente comprava adesivos dos patronos das nossas forças armadas na papelaria para colar nos trabalhos de História. Eu tinha um do almirante Tamandaré).

Matamos paraguaios para cacete.

Fato que pode ter definido a total falta de vocação do país para qualquer coisa, até hoje. O país transformou-se numa terra de ninguém, sem indústria, sem política fiscal, sem nada.

De lá para cá, continuamos vendo o Paraguai como uma insignificância. Não damos crédito ao que vem de lá, virou zombaria em comercial de TV, “la garantía soy yo”.

Na década de 80, quando nossa economia era fechada à concorrência dos importados, cada um tinha um contrabandista “de confiança”. Ele sempre tinha uísque, cosméticos (o bronzeador rayito de sol e o creme de tartaruga eram hits), chocolate suíço e outros supérfluos provenientes do Paraguai.

“De confiança” porque havia muita falsificação. E aí o Paraguai passou a ser, entre nós, sinônimo de fraude, de lixo, de coisa pouco confiável.

Quando visitei a Assunção, em 1995, ainda era, de certo modo, uma terra arrasada.

Depois de horas e horas de ônibus, cruzando o interior do país, parando em cada vilarejo e observando as pobres mulheres subindo e descendo com suas matulas repletas de chipas quentes e K7s dos Carapegueños, chega-se a Assunção, uma cidade estacionada no tempo.

No teatro municipal havia uma peça “ousada” com o sugestivo nome Ab Ovo Diet Semidescremado. O que todos na plateia entendiam como subversão era, em verdade, uma provocação pueril, fruto de absoluta imaturidade política.

Um sentimento de pena.