Safran Foer, vegetarianismo e carne humana insepulta

O jornalista Bob Baird, na redação do Journal News, em 2003

Se você visse como é feita a salsicha, não teria coragem de comê-la.

Quando descobriu que ia ser pai, o escritor Jonathan Safran Foer começou uma extensa pesquisa para saber mais sobre a alimentação de seu filho. Fez entrevistas, visitou fazendas orgânicas, fábricas de alimentos e abatedouros nos Estados Unidos.

A pesquisa resultou no seu primeiro livro de não-ficção, Comer Animais  (Rocco, 320 págs., R$ 41,50), que está na minha pilhinha de prioridades. É um relato de quem conhece a nojeira da comida processada, principalmente a carne, em suas mais diversas modalidades e consistências.

Você sabe, tenho vivo interesse por aquilo que anda na cabeça dos vegetarianos.

Tinha lido seu Extremely Loud & Incredibly Close, de 2006, que tem a tragédia de 11 de setembro como pano de fundo. E agora assisti a “Tão forte e tão perto”, filme do inglês Stephen Daldry, inspirado no romance de Foer.

É de morrer de chorar.

Apesar das lambadas que andou levando da nossa crítica especializada, é um filme que precisa ser visto, pelo menos pela curiosidade de checar a atuação do decano Max von Sydow, num papel em que convence sem pronunciar uma única palavra.

“Tão forte e tão perto” é a história do menino Oskar Schell, de 11 anos, que sofre com a perda paterna no World Trade Center. Na cena inicial, Oskar está revoltado com o funeral simbólico do pai, “é um caixão vazio”, ele berra, aos prantos.

O trauma de não poder enterrar os seus, tão bem descrito nas tragédias gregas, e que modernamente ganha as manchetes dos jornais quando há uma calamidade de grandes proporções em que os corpos se desintegram.

Lembro-me de uma história assim, marcante, contada pelo jornalista Bob Baird, o homem da foto. Velho repórter do Journal News, um pequeno diário da região de West Nyack, no estado de Nova York, Baird me recebeu para um rápido estágio, vão-se lá quase dez anos.

Baird me contou o drama de uma mulher que havia perdido o marido no 11 de setembro e que lutou deseperadamente — como, aliás, milhares de outros parentes na mesma situação – para encontrar seus restos mortais. Exames de DNA foram usados amplamente como forma de identificação dos despojos.

Até que, um dia, encontraram nos escombros o que parecia ser um dedo humano envolto por uma aliança de casamento. Na face interna do anel, a inscrição do nome da esposa.

No pungente relato da mulher, publicado no Journal News, ficou claro que o funeral daquele pedaço de carne podre foi a única forma de sobreviver ao trauma.