Walther vai liberar a Mia ? — Capítulo 3 de Coração Liberal

Não perca o próximo capítulo

Pessoas reclamam que não sabem quem é quem nesta novela e o autor faz uma pausa para explicar direito.

Walther é casado com Mia. Ele é quem sempre chega pela porta da cozinha e avista o pôster Georgia O’Keeffe antes de colocar as coisas na geladeira milionária. Mia sugeriu a Walther que iniciassem um ménage a trois, ou algo do gênero, com um homem que ela encontrou na internet, a quem chama internet man. O leitor atento dirá que não ficou muito claro se é mesmo um ménage que ela quer ou se deseja o consentimento de Walther para se divertir sozinha. De qualquer forma, ele está pensando no caso.

No segundo capítulo, Walther e Mia receberam para um jantarzinho Nina e seu marido desempregado e rico. O marido não tem nome, tudo bem? Aliás, tem, mas é uma opção narrativa omiti-lo, certo? Mia estava justamente no colo deste personagem sem nome quando, no final do Capítulo 2, tirou a foto com o celular. Tudo bem até aqui?

Voltemos então ao final do Capítulo 1.

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– Posso então marcar com o internet man? O safado diz que filma e depois manda pra você. “Vou zuar a puta e o corno”, ele falou. Ele quer que eu ligue pra você quando estiver gozando.

– …

Mia é uma mulher educada. Estudou psicologia na Universidade Stanford, fala português impecavelmente bem. Sabe tudo sobre o processo de aquisição da linguagem humana. Mulher responsável, filha exemplar, não tem e não quer filhos. Sua mãe foi uma acadêmica feminista respeitável no Rio Grande do Sul. Daí que “Vou zuar a puta e o corno” na boca de uma mulher com tantos predicados é um caso seríssimo.

Walther está pensando no caso. Apesar de ser um intelectual livre-pensador e sem preconceitos, tem sido acometido de uns flashbacks muito incômodos, o padre Lanza em homilias e coisas assim.

Está tentando entender o fenômeno, lembrando da primeira vez em que sussurou a ela que havia desejado vê-la com outro homem. O primeiro dia em que ela gostou de ouvir e pediu para que ele falasse mais. Com o tempo, a fantasia tornou-se o leitmotiv daquela vida sexual.

Não havia mais um único dia em que não aparecia a menção a um outro homem, às vezes múltiplos, anônimos no início, mas aos poucos se corporificando em sujeitos conhecidos e, depois, próximos e muito próximos. O que inicialmente era uma subversão agora era uma convenção. De sorte que, aos poucos, a simples menção dos nomes dos homens fictícios enfraqueceu.

Aqui e ali, em fagulhas de conversas e meias palavras, ambos passaram a considerar a hipótese de transferir aquilo ao plano real dos acontecimentos. Ela faria um tatuagem, uma dama de espadas, para dar o sinal verde.

O fenômeno Cuckold/Hotwife. Por que os maridos estão liberando suas mulheres? Estão? Certamente não no interior do Paraná.

Padre Lanza.

As motivações de um marido prestes a liberar sua hotwife.

Ele suspeita que ela esteja querendo experimentar sexo com outro. Imagina até que será inevitável, mas não aceita a hipótese de que ocorra à sua revelia; ao contrário, prefere consentir e aprovar qualquer possibilidade de sexo extraconjugal.

Deseja ter a sensação de controle e quer que os eventuais encontros sexuais de sua mulher com outros homens não tenham envolvimento emocional, para não arriscar o casamento. Por isso, gosta que ela mantenha comportamento e aparência de lady em público.

Ela pensa diferente, mas é assunto para os próximos capítulos.

– Posso?

– Pode.

Ela aciona o celular com um sorriso.

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* este é o terceiro capítulo da novela Coração Liberal, aberta à sua participação, caro leitor. Ajude a escrever o próximo capítulo no espaço reservado aos comentários do blog, que é generoso. O quarto capítulo não tem data (e nem obrigação de) para ser postado, vai depender.

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