Monte sua biblioteca com o método prático Paulo Francis

Sim, ele foi jovem. Foto: Itáu Cultural

“O fato é que qualquer pessoa com bom conhecimento da Odisseia e da língua inglesa lê Ulisses (de Joyce) num dia de leitura.”

Este é Paulo Francis, em artigo de 1977, na Folha de S. Paulo. Bom, né?

Li no sábado, numa sentada — já Ulisses… tento ler há anos — a boa coletânea das crônicas de Francis, publicadas na Folha de 1976 a 1990, organizadas e apresentadas por Nelson de Sá num livrão caprichado do novo selo editorial Três Estrelas, com posfácio do mais famoso Francis wannabe da atualiadade, o Pondé.

A propósito, a Folha dá hoje (8/5) que o livro entrou na lista dos dez mais vendidos.

É leitura obrigatória para jovens que começam a montar suas bibliotecas. Como, aliás, foi para mim quando lia o Francis na FSP e, mais tarde, no Estadão. Era uma vida pré-web, ir a Nova York não era assim simples, Francis tornou-se uma conexão com o mundo civilizado e indicou leituras importantes.

Fui à minha estante resgatar umas coisas e anotei alguns trechos aqui, acho que você vai gostar. Você também gostará dos diversos nomes que o Francis cita, é um name dropping sem fim, mas tem charme: Norman Mailer, T.S Eliot, Kenneth Tynan, Saul Bellow, Mary McCarthy, Eugene O’Neil, Ibsen, Edmund Wilson, Ezra Pound, Mencken, Arthur Miller, Tennessee Williams, etc.

De fato, ótima tradução do Ivan Lessa

“A meu ver, Capote produziu o único romance contemporâneo americano que me parece moderno, como entendo a palavra, In Cold Blood (1965), que miraculosamente para o leitor brasileiro está traduzido à perfeição por Ivan Lessa, com o título A Sangue-frio”. (Truman Capote, criador do romance moderno da literatura americana, página 196).

“As vidas americanas não têm segundos atos”, escreveu Scott Fitzgerald, que deixou em The Great Gatsby um dos poucos romances comparáveis a A sangue-frio. (Truman Capote, criador do romance moderno da literatura americana, página 201).

Não é o meu preferido do Updike, mas é ótimo

“Couples, que foi publicado no Brasil, mostrava que trocar de mulher (entre casais) tinha chegado à classe média, com vários séculos de atraso. Bidu. E havia, sendo Updike obviamente americano, a cabecinha suja e culpada em face de sexo. Mas culpa episcopal. Igreja meio furreca, para nós, católicos, ou ex, meu caso.” (John Updike, um talentoso escritor sem nenhum caráter, Página 152).

Ontem, conversando com o Robert Greem que hoje é um cara de vídeo, descobri que ele foi revisor/checador do Gore Vidal, um autor que ainda vive, mas perdeu completamente a mão naquele artigo do 11 de setembro e não se recuperou

“Duluth é, com Myra Breckinridge (1968), o que Vidal produziu em que foge ao realismo que o trava em outros romances. Myra é uma comédia de confusão sexual que feministas escreveriam se mulheres soubessem escrever sátiras. Não sabem. Mulheres são todas sérias.” (A criação de Gore Vidal, página 192).

“Domingo à noite jantei com Bertolucci e mulher, num pequeno grupo, e depois na minha casa conversamos até três horas da manhã. (…) Bertolucci, porém, conquistou meu coração ao caçarmos um táxi, na saída do restaurante, quando lhe contei que naquele mesmo restaurante, numa reunião algo careta, eu possesso de uma mistura química inacomodável, vomitei sobre a mesa. (…) Bertolucci fez pior. Ao conhecer Jean-Luc Godard, a quem adora, foi tal a emoção que vomitou sobre Godard. É impossível não gostar de uma pessoa assim.” (Adivinhe quem veio para jantar, página 47)

“Celebridade é prostituição em vários sentidos. A carreira de Jackie Onassis, analisada a frio, foi vender aqueles preciosos sete centímetros anatômicos a um milionário que se tornou presidente dos EUA e, viúva, a um gângster e picareta internacional grego.” (Como vivem os ricos, página 69).

“Não tenho paciência particularmente com a incapacidade de autocrítica do jovem. Ele quer certezas. Isso é produto de uma profunda insegurança, perfeitamente compreensível na juventude, mas, quanto mais cedo o jovem se der conta disso, mais cedo atinigirá a maturidade. E jovem tende à coterie, à claque, a cerrar fileiras em torno de intocáveis, como a Petrobras, Chico Buarque, a capacidade criadora das massas.” ( A aurora da minha vida, página 112).

Um erro cultural grave é afirmar que Nelson revolucionou o teatro brasileiro com Vestido de Noiva. A revolução veio quando Nelson escreveu Doroteia, Senhora dos afogados e principalmente Álbum de família. Foi o período da danação dele. A direita (…) o converteu num pornógrafo, no tarado, no abominável intocável. (Nelson nunca foi um intelectual, página 125).

“Outro dia fui almoçar com Andy Warhol. Mais e mais ele parece uma gigantesca barata descascada. Tem uma fábrica aqui, e senhoras compradoras da Europa olhavam respeitosamente a chacota que Andy faz do pós-modernismo. Sem talento algum, ele é simpático, doce, diz coisas inteligentes (é um entrevistador esplêndido, como sabem os leitores de Interview). Disse a ele que deveria entrevistar Brejnev. Disse que não saberia o que perguntar. Eu disse que isso é que faria a entrevista boa. Um silêncio de ambas as partes.” (Um acordo mundial para suspender tudo, página 133).

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