Minha conversa com Talese, um mestre do jornalismo

Talese falou sobre uma história incrível que ainda pode escrever: ele conhece e se corresponde com um voyeur patológico, ex-dono do motel cujos quartos foram monitorados por câmeras, anos a fio, algo como um grande laboratório humano. Foto: Rafael Cusato

Gay Talese nasceu Gaetano Talese, em 1932, na cidade de Ocean City, no estado de Nova Jersey. Começou no jornalismo na década de 50, trabalhando no jornal The New York Times.

A partir de 1960 passou a escrever para revistas e publicou – principalmente em Esquire – alguns dos textos mais incríveis da história do jornalismo.

Foi nas páginas de Esquire que saíram os célebres perfis que fez de Joe DiMaggio e Frank Sinatra.

Durante a década de 60 começou a publicar livros, mas o grande sucesso começou com a publicação de O Reino e o Poder (1969) e depois vieram a coletânea Fama e Anonimato (1970), Honra Teu Pai (1971), A Mulher do Próximo (1981) e muitos outros até Vida de Escritor (2006).

A seguir, transcrevo um resumo da entrevista com Talese, realizada no dia 29 de maio de 2012, no auditório da Editora Abril, em São Paulo.

Talese: “o jornalista precisa ser elegante e ter boas maneiras”

Imprensa agressiva e democracia

Se você quer ter uma democracia é fundamental ter uma imprensa independente e agressiva. A imprensa, quer seja neste país ou nos Estados Unidos, como em qualquer outro lugar do mundo, é a única fonte capaz de combater a hipocrisia, a mentira e a corrupção.

Tenho oitenta anos e me orgulho de ser jornalista como aos vinte. Sempre acreditei que na nossa profissão há menos mentirosos do que em qualquer outra.

Claro que também existem mentirosos no jornalismo. Mas as pessoas que expõem esses mentirosos são os próprios jornalistas.

Há alguns anos havia no jornal The New York Times um mentiroso renomado chamado Jayson Blair. Os jornalistas que descobriram que ele mentia não apenas o chutaram de lá como também eliminaram os dois chefes do jornal.

Não foi a Suprema Corte, não foi o presidente, não foi a máfia, não foi a Ku Klux Klan, mas os próprios jornalistas decidiram eliminar os principais editores do jornal.

Isso é digno de admiração, na nossa profissão há menos mentirosos do que entre os banqueiros, políticos e agentes do FBI.

É por isso que o jornalismo é importante.

Integridade, a busca pela verdade, a eliminação do engano. Não é apenas uma profissão, um trabalho, é um chamado, é algo quase religioso, são pessoas que tem uma crença, idealismo. Elas não querem apenas dinheiro. Claro que elas precisam ser pagas, mas elas querem algo melhor do que apenas ganhar dinheiro. Se eles quisessem apenas ganhar dinheiro iriam ao Vale do Silício inventar algo, sei lá, Facebook, não estou nem aí para essas coisas. Eu não tenho nem telefone celular.

Ascensão social dos jornalistas: perigo

Quando comecei, aos 20 anos, eu e muitos de meus colegas jornalistas éramos outsiders. Nossos pais provavelmente não tinham diploma universitário e nós não fomos às melhores universidades.

As pessoas que a gente entrevistava eram muito influentes, importantes, estavam num degrau acima da gente. Nós não éramos eles e isso era importante para que tivéssemos uma visão isenta, de fora.

Hoje é diferente. Os jornalistas têm a mesma instrução, o mesmo nível das pessoas sobre as quais escrevem: famílias com dinheiro, de classe alta.

As pessoas que estão no jornalismo hoje, os repórteres, os colunistas, frequentaram as mesmas escolas que os poderosos, frequentam os mesmo clubes, jogam tênis juntos, os filhos deles frequentam as mesmas escolas.

O jornalismo se elevou socialmente e isso é perigoso por causa da familiaridade que há entre jornalistas e as pessoas no poder.

11 de setembro

Depois do 11 de setembro, chegou aos EUA um período de patriotismo, uma tentativa de vingar as mortes.

Pessoas como eu, que assistiram à Segunda Guerra Mundial – não como participante e nem como vítima, mas como leitor – perceberam que era a primeira vez em que o povo americano entendeu a tragédia de uma guerra em seu próprio território.

Isso criou na imprensa uma falta de agressividade.

O governo na época disse: a gente tem que proteger vocês dos terroristas, a gente precisa aumentar o nível de segurança nacional e não há duas palavras piores para os ouvidos da imprensa honesta do que “segurança nacional”.

Quando falam em segurança nacional isso significa que estão retirando o poder do ceticismo das mãos da imprensa e repassando ao governo, às autoridades que fazem cumprir a lei, a CIA, o FBI, o Congresso, o governo em si.

Estão te dizendo o seguinte: nós estamos te protegendo e estamos dizendo o que você deve fazer.

Plateia lotou o auditório da Abril no bate-papo com o jornalista

Responsabilidade

Algumas pessoas podem ter uma impressão errada dessa minha defesa de um jornalismo mais agressivo. Não estou defendendo a irresponsabilidade, quero deixar isso bem claro antes de continuar.

É importante ser sério e sensível em relação ao que você esta fazendo. É preciso ser sensível em relação à violação de segredos.

O New York Times e outros jornais não dão o nome da fonte, eles querem proteger o nome da fonte, e foi assim que a gente acreditou nas armas de destruição em massa.

Mas quando a gente pega a informação de uma fonte, pelo menos eu, você tem que identificar as fontes porque essas fontes serão responsáveis pelo que estão dizendo.

Elas têm que ser responsáveis tanto quanto você, elas têm que ser cuidadosas, se o nome delas for aparecer elas serão mais cuidadosas. Tudo bem, você quer dar uma informação, talvez ela seja bombástica, talvez ela venda jornais, talvez ela te faça famosa, mas não é um bom jornalismo, isso é perigoso por que você pode estar arruinando uma pessoa inocente, um personagem inocente, uma vez que essa noticia é divulgada e uma pessoa pode até ser indiciada por alguma coisa, mesmo que você faça uma correção daqui a um mês, essa correção será pequenininha, será uma errata lá no fundo. O dano foi causado na primeira página do jornal, você não consegue consertar.

Máfia

Eu me interessei pela máfia e por vários outros assuntos pela mesma razão.

O jornalismo é uma forma de conhecimento.

Autores de ficção como Gabriel Garcia Marquez, Hemingway escrevem sobre a condição humana.

O jornalismo, que é não-ficção, também pode ser uma forma de conhecimento, de aprender coisas que você não sabia antes.

A máfia, quando eu cresci, era muito presente na imprensa. No último ano em que trabalhei no The New York Times, em 65, eu então cobria no tribunal o caso da família Bonnano.

O patriarca era uma espécie de poderoso chefão, Joe Bonano, mandava num grupo de 400 pessoas na área de NY. O segundo era o filho dele, Bill Bonano.

Fui ao tribunal com um monte de outros jornalistas para ver o julgamento.

O juiz queria que eles falassem sobre o mundo deles, é claro que eles negaram que houvesse máfia, não falaram nada, valeram-se da quinta emenda, foram para a cadeia por que não cooperaram com o governo.

Lá encontrei Bill Bonnano – eu devia ter na época uns 30 anos e ele estava bem vestido assim como eu estou – e pensei,  esse cara é filho de siciliano, eu sou filho de calabrês (e a Calábria é ali na pontinha da bota, bem perto da Sicília). Qual a diferença entre Bill Bonnano e eu?

Bill está no EUA, é filho de um imigrante e eu também. Joe Bonnano tinha mais ou menos a idade do meu pai, então esses dois caras eram imigrantes, vieram mais ou menos na mesma época, na década de 20, e qual era a convergência em termos de sentimentos, de aspirações entre eu e esse cara e eu pensei: que historia interessante.

Não era uma matéria sobre crime organizado, mas sobre como as pessoas enxergam a oportunidade de crescer, de certa forma, para fora de uma situação isolada ou menos privilegiada, tanta gente no mundo quer ter privilegio e poder…

Mas isso não exclui o fato de que ele era um criminoso…

Não penso assim, não pré-julgo gangsters, assassinos, pornógrafos, terroristas, eu não estou nem aí, eu quero saber sobre o terrorismo, eu adoraria passar um tempo com os terroristas.

Naquela época os mafiosos eram meio terroristas, de certa forma. Eles eram criminosos organizados, melhor do que o crime desorganizado. Os criminosos desorganizados te matam não importa quem você seja. Na máfia eles te matam sabendo quem você é, eles têm um motivo. Talvez não seja um motivo para matar alguém, mas acho até mais saudável do que o outro tipo de crime.

Bom, eu estava te contando que o jornalismo é uma forma de saber. A máfia era uma fonte de corrupção que estava sendo bem sucedida como crime organizado, estava conseguindo poder, dinheiro, controle de coisas ilegais.

Drogas, jogo, prostituição, o que quer que seja considerado ilegal. Então a máfia estava se alimentando das coisas que as pessoas queriam – mas que não eram legais.

Isso é uma coisa capitalista, eram mercados, todo mundo quer um mercado. O povo americano queria determinadas coisas que eram ilegais, o governo não cobrava impostos sobre esses serviços.

O submundo da máfia atendia ao gosto americano: drogas, sexo, jogo ou qualquer outra coisa nessa linha. Às vezes, o que é ilegal hoje pode não ser daqui a dez anos.

Então é o governo americano que tem que barrar essas coisas. Eu não faço distinção. O que eu quero saber é como essas pessoas são durante o dia, à noite, como é a mulher desse cara, os filhos, se vão à igreja, o que comem, que carro têm. Qual a diferença entre esses homens e eu.

Afinal, depois de muito insistir, consegui dizer a Bill Bonnano:  quero que você venha jantar na minha casa, traga seus filhos, sua mulher. Minha mulher faz um jantar, você conhece meus filhos. Isso foi essencial. Aí o mafioso levou a mulher dele para a minha casa, conheceu os meus filhos, e é isso que eu queria, queria vê-lo em família, por dentro da família do criminoso.

Fontes

Já te falei que eu não julgo as pessoas. Se vou escrever sobre a máfia, quero entender a máfia. Não vou entendê-la se for falar com os detetives, se for esperar que a suprema corte me diga como é a máfia, eles não vão me dizer.

Não tive medo de que o governo fosse me fazer falar sobre o que eu tinha conversado com a máfia. A gente tem a primeira emenda na constituição, temos o direito de falar com quem quisermos falar.

Em segundo lugar, eu sabia que eu estava fazendo uma coisa que os jornalistas não estavam acostumados. Os jornalistas da minha geração tinham o habito de lidar com fontes oficiais.

Se você falava com a polícia e com o FBI, então não podia falar com criminosos.

E eu achava que podia falar com criminosos. Se você quer escrever sobre um crime, com quem você vai falar? Com os criminosos. Eu tinha uma visão distanciada, um ceticismo em relação ao poder, em relação à lei.

Em relação ao medo de ser morto eu tinha um grau de confiança. Estar na casa do Bonnano, com os guarda-costas dele, às vezes a gente ouvia a historia dos carros deles…  Eu pensava, pode acontecer, mas quando você está em uma situação que vai ser fatal, você não sabe com antecedência.

Quando o presidente John Kennedy foi para Dallas, entrou naquele carro conversível, ninguém imaginou que alguém ia subir em uma janela com um rifle e atiraria na cabeça dele. Tinha gente da polícia secreta espalhada pela cidade inteira.

Até eu sei que você nunca sabe quando esta em perigo, então não se preocupe com isso, relaxa.

O jornalista elegante

O jornalista precisa ser educado e estar sempre bem vestido. A relação do jornalista com a fonte é como quando você encontra alguém interessante, uma mulher, por exemplo, e você quer conhecer essa mulher.

Você precisa de tempo, de paciência, precisa ter uma abordagem educada, cortês. Não fará mal se você estiver bem vestido, causará uma boa impressão.