Futebol foi o assunto na abertura da [FLIP]

Drummond era vascaíno e eu não quis publicar um meme ridículo que circula, provavelmente fake, em que ele diz que “doente é quem não é vascaíno”

Nesta pitoresca cidade fluminense, noite de final de campeonato, os amantes da literatura são também torcedores – alguns aparentemente blasés, sim – nos bares da cidade.

Nos bares os literatos normalmente costumam entregar-se às tertúlias, às coisas do reino intelectual. Mas nesta quarta (4/7) era só futebol. Que, segundo muitos, inclusive Carlos Drummond de Andrade, não deixa de ser.

“Fui gremista”, diz um amigo. “Sou são-paulino bissexto”, digo como que para me solidarizar e também manter à distância os domínios da paixão ludopédica.

O ponto alto da abertura da Festa Literária Internacional de Paraty foi a fala do poeta Antônio Cícero sobre Drummond. Curta, também preocupada com a dimensão política do autor, mas fluida, apaixonada e menos acadêmica.

Ele dissecou o poema A flor e náusea, que é um belo poema engajado de Drummond publicado em 1945, e lembrou os ecos de La nausée (1938), de Jean Paul Sartre, que nunca foi um grande romancista, mas sim, a náusea de que ambos falam é atualíssima, oportuníssima, transcende o indivíduo, engolfa-o, está entranhada nas cidades modernas.

Eu só pensava em Paraty enquanto Antônio Cícero falava.

Faltou, tanto a Cícero quanto a Silviano Santiago, que o precedeu na palestra, dizer que Drummond, a certa altura, deixou de lado o engajamento político e dedicou-se à dimensão superior da poesia.

Por isso Drummond declarou, já maduro, como Auden, que é naif pensar que a poesia tem o poder de transformar a realidade, mas que ela pode, sim, ajudar a viver, a perceber melhor o mundo. Veja o post anterior.

Mas na cidade da festa literária, no dia da grande abertura, o futebol foi o assunto principal.

Para você, corinthiano vencedor, separei duas frases do vascaíno Carlos Drummond e Andrade:

“Eu sei que futebol é assim mesmo, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde, mas por que é que, quando a gente ganha, ninguém se lembra que futebol é assim mesmo?

“Perder é uma forma de aprender. E ganhar, uma forma de se esquecer o que se aprendeu”.

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