Teatro de Gerald Thomas deve muito aos desenhos que fez para o NYTimes

Gerald Thomas, aos 15 anos, em foto de Marisa A Lima

Gerald Thomas era um garotão cheio de planos no começo da década de 1980. Muitos planos, nenhum dinheiro no bolso e todas as oportunidades de uma cidade como Nova York. Foi quando então virou-se para Daniela Thomas, com quem era casado, e viu-se tentado pela ideia de buscar uns frilas como ilustrador nos jornais e revistas da cidade.

De certa forma, Gerald Thomas — a quem doravante chamarei GT – começou ali. Foi desenhando e pintando para o Times e revistas como Atlantic Monthly, Mother Jones e Vanity Fair que consolidou o talento para as artes visuais, base de todo o seu trabalho posterior no teatro, este amplamente conhecido.

São trinta anos desde os primeiros desenhos publicados. T-R-I-N-T-A anos. A boa notícia me foi dada no sábado pelo próprio GT: os desenhos serão publicados no Brasil em novembro de 2012, em livro editado pela Cobogó.

– Mas como foi mesmo, GT, que você começou a frilar para o The New York Times?

– Eu sempre desenhei, pintei. Aliás, muito antes do teatro, essa é a minha formação, via Ivan Serpa e Hélio Oiticica, Ziraldo e, mais tarde, Saul Steinberg. Era 1981 e tínhamos acabado de participar da The Tempest, no Delacort Theater (de Joe Papp) no Central Park. Liguei pro departamento de arte da OpEd page do Times. Me passaram pra Jerelle Kraus. A norma era de deixar o portfólio na portaria todas as quartas e receber um bilhetinho. Ela deve ter ido com a minha voz e disse “passa aqui”. Fui andando a pé da Mercer St. com 4th Street até a rua 43, onde era o Times, com a pasta debaixo do braço. Fiquei lá umas três horas e saí com um “assignment” já pro próximo dia. Era sobre “a perda de identidade” no mundo, e mandei ver. Tinha que levar o desenho no dia seguinte antes das 15h. Levei. Ela amou. As 11h30 da noite daquele mesmo dia, já estava nas bancas: meia página da OpEd com a minha primeira ilustração. No dia seguinte ela me ligou. Tinha outro assignment. E mais outro e mais. E assim passaram-se quatro anos ou mais: prisioneiro do NYTimes. Cada desenho me pagava 350 U$, imagina isso no início dos anos 80. É, obvio, vieram mais convites. Veio o Boston Globe Magazine, o Atlantic Monthly, o Mother Jones, Vanity Fair e tantos outros. Fiz uma fortuna.

Reprodução de página do NYT com ilustração de GT no backdrop da peça Um circo de rins e fígados

– Fale um pouco sobre o livro que vai reunir seus desenhos

– Está saindo pela Cobogó Editora, em inglês e português, 180 páginas, 360 desenhos/pinturas/ilustracoes e scribbles. Quem está paginando é o Victor Hugo Ceccato. Olha o link abaixo com uma prévia do livro:

http://geraldthomas.net/OP-Illustrations-Book-1of2.html

– A professora Silvia Fernandes tem um livro chamado “Gerald Thomas em cena”, em que ela reproduz alguns de seus “cadernos de direção” e, a partir da análise deles, faz considerações sobre o seu processo criativo no teatro. Tudo começa a partir do desenho? O texto vem depois, GT?

– Acho que sim. Mesmo que não seja do desenho ou pintura em si, vem de uma “situação visual”, por falta de um termo melhor. O texto vem junto. Tem desenhos em que o texto está rascunhado pelas bordas da página. Isso quando não vem já no corpo do desenho em si. A luz também está ali.

Ilustração para o New York Times OpEd Page circa 1982 – coffee, mixed media

– GT, você topa responder à minha versão condensada do Questionário Proust?

– Ahá, chegamos ao ponto mais baixo de nossas vidas !!! São as perguntas básicas do JA, o jornal que o Tarso de Castro fez antes de morrer. Já te respondo.

Sua virtude preferida – A de ouvir as pessoas e ser grato aos meus mentores.

Suas qualidades preferidas em um homem – Que ele se cale sobre suas virtudes sexuais porque é sempre bullshit.

Suas qualidades preferidas em uma mulher – O tamanho do salto alto.

Seu principal defeito? – O tamanho do meu salto alto.

Sua ideia de felicidade? – Ganhar um salto alto maior. Salto Alto, California.

Onde gostaria de viver? -  No King David Hotel em Jerusalem.

Seus autores favoritos? – “Vivos ou mortos? Ou aqueles que ainda não decidiram?”

Seus heróis preferidos na ficção – “Kafka e o cara aqui da esquina da 3 Avenida que faz fotocópias!!!”

Sua bebida preferida? – “Açaí orgânico, pela Sambazone em forma de smoothie.”

Sua comida preferida? – “Pato no tucupi.”

Qual o seu estado de ânimo atual? – “Deprimido como sempre.”

Seu lema – “Olhar a cor do sinal de trânsito e tentar fazer o contrário porque em Londres tudo é ao contrário.”

 

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