O maconheiro, quem diria, virou um charme

Oi? Como é que é mesmo?

Acho que demorou um pouco até que ficasse claro para nós o significado da palavra maconheiro. Por certo intuíamos ser um qualificativo pouco lisonjeiro, mas não alcançávamos exatamente a coisa. Até porque o termo era empregado quase sempre como sinônimo de vagabundo e, mais raro, sujo.

A gente morava em Monte Alto, no interior de São Paulo. Entre os meninos, havia basicamente dois tipos: os bonzinhos e os propensos a “descambar para o mundo das drogas”. As meninas não participavam. Elas eram boazinhas ou galinhas, como a Lubico, o caso mais grave da cidade.

Havia um ou dois cabeludos na praça fazendo pulseirinhas trançadas que eram sistematicamente chamados de maconheiros. Os maconheiros, quase sempre, eram cabeludos, tinha isso também. No caso daqueles, não pareciam realmente muito chegados a um banho. E, apesar de inofensivos, nós não ousávamos chegar perto deles.

Nós, os “remediados”, começamos a juntar os pontos e mais ou menos chegamos à conclusão de que maconheiro também tinha um pouco a ver com pobre. Por que quem fuma maconha não estuda e quem não estuda não trabalha e acaba pobre fazendo pulserinha trançada na frente da Matriz.

Daí que, muito mais tarde, quando fumamos o primeiro baseado, foi uma transgressão sem tamanho. Era a negação de nossos princípios basilares, o triunfo da rebeldia, enfim, a revolução. E nada acontecia. Nada. Era uma grande expectativa para saber o que iria acontecer e a coisa não acontecia.

Até que um dia aconteceu. E aquilo volta e meia saía do controle, vinham umas alucinações e um medo pânico de morte, um gosto seco e às vezes de sangue na garganta. E depois uma fome incrível e uma vontade não fazer nada. Uma vontade de sentar e fazer pulseirinhas trançadas.

Nada do que a gente pensava naquela onda servia para nada. Era, no registro marxista, contraproducente. Diferente do conhaque, por exemplo, que, aos poucos, fomos notando que nos deixava mais inteligentes. “Errado! Metade da melhor música do século 20 foi produzida sob o efeito”, uma convicção colocada amiúde em cima da mesa. A gente um pouco tinha obrigação de fazer parte daquilo.

Mas aí os maconheiros — a gente conhecia sobejamente o conceito e dominava tanto a “cultura” quanto um divertido jargão de entendidos – já tinham outro status. Eles estavam começando startups na Califórnia. Elas também começavam a fumar e havia um charme no ambiente, para além da fumaça.

No começo da vida adulta a gente ouvia aqui ali resoluções e promessas de amigos que viam grande vantagem em “parar” ou “dar uma parada”. E encaretaram, mas continuaram enchendo a cara de álcool e tabaco. Talvez voltem atrás quando estiverem com os fígados entupidos de whisky.

Outros amigos, mais resolvidamente, incorporaram como lazer sustentável. A medicina descobriu benefícios. O capitalismo americano era (e continua sendo) contra, o Clinton não tragou, o FHC intimamente queria liberar e só veio dizer agora; muito mais tarde o Obama, bem, você leu a biografia escrita pelo David Remnick?

Estava instituído um glamour, um chique. Da marginalidade ao mainstream em, lá sei, três décadas?

O maconheiro passou a ser a única terceira via verdadeira. Se você ainda não percebeu, o proselistimo do maconheiro século 21 — cheiroso-patchouli, articulado, brilhante e super produtivo – é a única bandeira plausível, em parte por incorporar outras bandeiras: a economia verde, a defesa dos animais, a vida orgânica e natural, as marchas e todas as coisas que todo mundo que não seja um reacionário idiota deveria apoiar. Em parte também porque é um charme.

Espera só para ver aonde tudo isso vai dar.

———————–

Leia também:

No banheiro com Henry Miller

Andressa Mendonça, a mulher de Carlos Cachoeira

Diferença entre atriz pornô e prostituta, por Stoya

Minha conversa com Talese, um mestre do jornalismo

Os incríveis fotógrafos do Krouchev Planet Photo

Mailer daria palmadas no bumbum das slutwalkers

Marcha das Vadias, bobagem de meninas classe média

Lili St. Cyr, a primeira bombshell

Monte sua biblioteca com o método prático Paulo Francis

O fantasma de Paulo Francis

Coração Liberal Capítulo 1

Coração Liberal Capítulo 2

Coração Liberal Capítulo 3

Coração Liberal Capitulo 4

Coração Liberal Capítulo 5

Coração Liberal Capítulo 6

A pupila e o mestre, por Ian McEwan

São Paulo, túmulo do rock e da literatura

O efeito “Quero Ser John Malkovich” dos blogs

Você é sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico?

Safran Foer, vegetarianismo e carne humana insepulta